2012-07-24

As férias viscerais


Quando estávamos no vestíbulo à espera de mesa ela disse-me que, por razões de força menor, tinha perdido nove irrecuperáveis dias de férias. Riu-se. Depois começou a chorar para que só eu pudesse ver. Se eu não fosse um preditivo amigo e um putativo amante, teria encolhido os ombros e dito
- Estas coisas acontecem a todos, temos de estar sempre preparados.
como lhe tinham dito todos os estranhos e conhecidos a quem ela fora desperadamente colher solidariedade. Mas como se faz isso numa sala de espera de um hospital, no único banco ou no lanço de escadas junto ao bloco operatório, com estropiados a sair e a entrar e os seus amores a entrar e a beijar, leves acenos como quem tenta dizer que isto é rotina e os corações todos partidos a pensar
- E se o perco?
Mas como eu sou um preditivo amigo e um putativo amante e ela me chamou para jantar na véspera de, finalmente, partir para menos de uma semana de férias e nove irrecuperáveis dias (interrompi-a)
- Tu dizes que são irrecuperáveis, mas...
- Já sei o que vais dizer.
- Não, não vou dizer isso. Vou dizer que talvez descubras uma nova forma de tempo.
Ela fez um cara feia e então jantámos, garfadas intercaladas com os olhares do costume, o beicinho, ela perfeitamente ciente de que eu a amo desesperadamente desde o estágio, eu conformado com o facto de ela estar perfeitamente ciente e portanto a nossa nunca vir a ser uma história de um amor secreto ou impossível. Apenas corremos o risco de nos amarmos toda a vida e nunca sermos um do outro. É um risco alto. Um risco grave. Mas tolerável. Não, nunca lhe ocupei aquele espaço do entrenamorados. Nem ela me chamou para isso, dado que me ama. Sabemos que, ou ficamos para o fim de tudo, para últimos, para o resto do amor da vida um do outro, ou não seremos um do outro de todo. Como dizia o Gabo da Mercedes, já depois de ter ganho o Nobel evitando o fraque, com um fato branco de algodão, fechado até ao pescoço com botões, o "liqui-liqui" que perturbou as elegantes senhoras de Bogotá, desconhecedoras de certas tradições ("Por que razão Gabo se vestiu de cozinheiro para receber o Nobel?)*, como dizia o Gabo da Mercedes, acabamos por nos conhecer tão bem que já não temos a ideia de como somos na realidade. Estamos sempre aqui, estaremos sempre, e ficaremos no fim um para o outro se já não houver mais ninguém.

Ela começou as férias e logo no primeiro dia percebeu o que eu quisera dizer. Quando desceu o declive da praia de areia fina e branca a que voltava todos os anos para entrar no mar esmeralda disse para o marido
- Sabes quando te perguntam o que farias se soubesses que ias morrer amanhã? Eu dizia isto. O primeiro banho na praia a que volto todos os anos.,
que, embora lhe soubesse sempre bem, nunca lhe soubera assim. É o que faz a escassez. Atira-nos para uma forma de tempo em que cada elemento da rotina anual se torna visceral. E então passas a viver três dias num. O médico que atende lá em casa disse que a primeira vez que foi ao chalé de férias do sogro francês quis fugir e voltar para casa. Mas cada ano acrescentou um camada aos hábitos, que agora levam décadas e ele não dispensa. Foi este tipo de férias que lhe tiraram, a oportunidade de repetir várias vezes o que não podia fazer - e esperava fazer - durante um ano.
O primeiro bafo tropical, que a ampara como um cobertor que lhe deitam pelas costas dizendo, vá, chegaste, tira a roupa toda, vais passar quinze dias nua, o corpo livre de quase tudo.
O primeiro banho.
A primeira vez que se estende na toalha com a revista rosa.
A primeira dose de sardinhas brancas na Concha.
O primeiro café com os pés na areia no Carlos.
O primeiro jantar no indiano com o pão e o molho de manga.
O primeiro passeio urbano em calçada portuguesa e lojas de praia por todos os lados.
O primeiro livro.
O primeiro texto na varanda sobre o mar a ouvir a música que separou para as próprias vísceras.
A escrita com o corpo nu até às quatro da manhã, as conversas com os amigos no facebook sem ter de dizer tenho de me deitar que amanhã trabalho cedo.
A casa propositadamente desarrumada, o cheiro a bronzeador, a tez dos sensatamente sucedidos, o pão pela manhã, os refrigerantes frios, as minis.

Isto tudo e só passou um dia.
Eu estava falida no pensamento, queimada na amplitude da esperança, dissera que nunca precisara de férias como este ano e tiraram-me nove dias irrecuperáveis.
Afinal os seis que tenho vão ser vezes três. Quando se tem seis dias não há espaço para deixar andar. Estremece-se a cada passo que renova o seguinte.
Bem dizia ele. Ainda não vou embora amanhã.

Ela escreveu-me a dizer que eu tinha razão, as férias viscerais, os três dias num.
Acabamos por nos conhecer tão bem que já não temos a ideia de como somos na realidade
Escreveu-me, o meu amor.

PG-M 2012
* de "O aroma da Goiaba", GG Márquez e PA Mendoza, Edições Dom Quixote

Sem comentários: