2012-06-26

Não é explicar, é dar razão à alma

Ouvir Rui Mário Gonçalves - que vai muito para lá de um crítico de arte - falar à Paula Moura Pinheiro da exposição sobre naturezas mortas - que também foi muito para lá das naturezas mortas - que esteve patente na Gulbenkian (a segunda parte, com intervalo temporal que vai de 1839 a 1955, portanto a menos académica) neste ano de 2012, é em si uma lição. É o exemplo crasso de como se pode falar com uma desarmante simplicidade dos mais complexos conceitos. Eu estava a ouvi-lo e a sentir que se processava uma revolução na minha forma de entender todo o tipo de conceitos. Geometria, estética. As pinceladas paralelas, as pinceladas ondulantes, o volume, o tacto, a sombra, a forma de criar planos ou texturas, o impresso, o expresso. Como ignorante que sou, e por mais que me interessasse pelo que fui ver,  não apreciei a exposição devidamente e fiquei com muita pena de ter perdido a primeira parte, a académica. Quando assim é, deixo-me levar pelos sentidos e escolho obras que me "incomodem". É curioso como agora, em podcast (ou seja, apenas na versão áudio) e sem ver qualquer imagem, meses depois de ter visto a exposição ao vivo, pude apreciar detalhes pela via de conceitos que o Rui Mário Gonçalves, conciso e sábio como as melhores pinturas e os melhores pintores, ia expondo entre expressões que ouvíamos na infância à escala da aldeia ou do bairro onde crescemos. Até chamar "jeitoso" a um Picasso. A nota final é de um certo pessimismo: estes sábios estão a desaparecer, estes sábios que nos acompanham com entusiasmo e uma postura de tal forma humilde que parece que estão à espera de aprender connosco, e não o contrário. Não era preciso ter lido previamente a biografia do Rui Mário Gonçalves para lhe perceber a sabedoria multi-disciplinar. Como tem de ser com quem sabe. Não é explicar, é, como ele diz, dar razão à alma.

PG-M 2012

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