2012-06-14

Crónica bonitinha dos que têm a mania


Digam os da nossa "raça" que é mentira (não é). Há mesmo um mundo de m. com gente que é feliz com muito dentro e, mesmo infeliz com pouco fora, trabalha e cumpre. Os que "têm a mania" que cumprem os seus deveres e compromissos pontualmente e têm uma só palavra, os que trabalham com ou sem gosto (mas trabalham), os que têm princípios e respeito pelo detalhe de cada um, não se confundem ou hesitam nas encruzilhadas éticas e se arrepiam com os que a golpeiam mesmo sem saber explicar porquê, esses, prosseguem. Continuam disponíveis para tudo. Intimamente já se convenceram de que são uma minoria que não se pode queixar. Que não quer fazer a figura dos que se queixam mas se estão lixando para o gajo do lado. Aqueles prosseguem. E quando pensam, legitimamente, que as pessoas são iguais em todo o lado e que mais vale é cautela, eis que aparecem dois italianos - "amigos" de longa data - que perdem as aspas de vez e cujo "tipo" não nos é conhecido. Pontuais, disponíveis, gratos, prestáveis, com humor largo limpo de cinismo, tão hesitantes quanto nós quanto às virtudes da natureza humana. Quanto à esperança na condição humana. Que não passam a vida a cheirar os rabos dos outros. Que não são oferecidos mas oferecem. Que sabem dizer não e cujos sins têm epessura, não a finesse do facilitismo. Verdade. Por tudo isto, caramba, tem de ser injusto que só friamente e depois de muitos filtros constatemos o fervor da gente boa. A gente boa é, por definição e à entrada, morna, não atinge facilmente o ponto de ebulição ou de congelamento, mas acaba por ficar sujeita aos mesmos filtros inclementes das bestas. Há um momento em que todas as defesas caem e se resolve apostar tudo. À medida que se avança no tempo resiste-se cada vez mais a este momento. A boa gente torna-se impermeável à gente boa. Passa a abrir a porta uma vez por ano. Depois uma vez por década. Depois uma vez por vida. E passa a assinalar o feito. E o que fazer quando tudo arde? Crer que agora é que vai ser. É nosso dever ser irresponsável a este ponto. Agora é que vai ser. Deste ou do outro lado do mundo, na mesma língua ou noutra qualquer. Por gestos. As pessoas más trespassam-nos com estiletes invisíveis. As pessoas boas agasalham-nos.
Há consequências práticas, comesinhas, frívolas, mas saborosas, para estas. E apetece celebrá-las, como apetece celebarar algo que está mais nos livros leves – e nalguns pesados infantis -: a amizade. E passa a ser impossível deixar de torcer pela squadra azurra. E da voz íntima dos amigos que se ganharam sai a projecção lógica. Forza Italia. Forza amicci. Io sono la stanza dove la parola sanguina.

PG-M 2012

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