2012-06-19

acorda-me quando setembro acabar

quando junho começou, e tu tomaste
o espaço todo da praia
e o teu lugar se compôs
e fazias quinze anos
e o tempo cheio
de ti
estava tudo por cumprir

vinham vagas com sorrisos
de uma barraca do topo

e na rebentação as ondas
engoliam-me com drama
e tu rias
da prancha que era o meu corpo
do indicador da pistola
na têmpora
estávamos mortos
desse sólido e infinito
amor, e em setembro

tu que eras tudo sumiste
o tempo ficou pequeno
voltou devagar a chuva
ficou o norte na mão
e entre dunas solidão
praias vazias
de tudo nem as barracas
nem os toldos que eram mapas
de tesouros
nem banheiros
nem senhoras de batatas
não há moradas nem nomes
só um jogo de memória
e eu a dizer por casa
sem ela vou-me matar
mãe

acorda-me só
quando setembro acabar

e então é junho outra vez
e passaram vinte anos
e nem linha de barracas
nem um só verão eterno
mas telefones e moradas
navegação à vista
esse eme esses
bluetooth
tags
ar
no teu lugar um bar
e a tua cara
a tua expressão completa,
que era um sorriso a montante,
a começar a apagar
e eu
sem sequer me querer matar
acorda-me só

quando setembro acabar

PG-M 2012

fonte da foto

PS: este texto foi livremente inspirado na canção dos Greenday "Wake me up when september ends". Aqui:

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