2012-04-06

Rita "Redboots" meets Tito "Redlight"

Uma análise frívola à sessão do "Conta-me histórias" da Rita Redshoes no Auditório Municipal de Gaia, com o Jorge Oliveira e o Tito Couto a assumirem o papel de entrevistadores, plasmaria em surdina que tinha sido uma brejeirice pegada. Depois, os diversos aportes culturais complementariam com adjectivos como "engraçada" ou predicativos do sujeito como "sem pés nem cabeça". No entanto, deste camarote, de onde se vêem mais séries e talkshows americanos do que telejornais portugueses (apesar do Jorge Oliveira), e onde se lêem mais livros do que jornais desportivos, o que se viu foi um momento de entretenimento raro. As unhas deste cronista de pé descalço - que não as costuma roer - são a prova de que, por menos de cinco euros, Rita, Jorge  e Tito trouxeram a Gaia hora e meia de sorrisos largos, riso sincero, desbragado, tensão, comunhão e êxtase. A nossa mentalidade pequenina levar-nos-ia, de um lado e de outro (porque de um verdadeiro combate se tratou), a simplificar os interlocutores em demasia. É comum vermo-nos nos outros sem qualquer esforço de objectividade, que é parecido com sensibilidade. Conhecendo a estrutura social do público do evento, não seria aconselhável uma conversa modorrenta e aborrecida sobre temas elevados que estariam ao alcance de qualquer dos intervenientes, mas não necessariamente da maioria daquele público que, ainda assim, acompanhou a comoção que se viveu - e viveu-se comoção até ser atingido o ponto de quebra, aquele que uma Madonna, por exemplo, atinge logo à primeira invectiva e um George Clooney nunca atinge. A Rita Redshoes esteve colada a ele quando proferiu o clássico "não sei porque é que me convidaste". Mas respondeu, "só", com uma das melhores interpretações que lhe ouvimos (e ouvimos muitas, apesar deste irritante plural majestático poder induzir em erro:) da música que seria o culminar do descambar: Bad Lila. Daí para a frente a Rita assumiu a personagem que Tito Couto tinha levado para ela, certamente com excesso de defesa, mas quem esteve lá e viu a "performance" do Tito não a poderia censurar. E esteve o Tito bem? Demasiado bem para a mediocridade reinante. São tantos os "entertainers" a tentar momentos memoráveis "à americana" sem nunca chegarem lá perto, que Tito, usando apenas a sua  verve nortenha, mostrando atenção aos detalhes e um razoável trabalho de casa, sem nunca se assumir como humorista mas contendo melhor e mais fino humor do que a maioria dos humoristas deste país, conseguiu, não levar Rita para onde queria, mas para onde não queria. E é esse momento, aquele em que se percebe claramente que o espectáculo seguiu o seu próprio rumo e descolou das previsões de quem o planeou que a tensão é criada na plateia. É o melhor momento. Mesmo Jorge Oliveira, cujo papel deveria e poderia ter sido o de contraponto às investidas de Tito, se deixou embalar pelo "tsunami" que ia engordando em torno da palavra "instrumento" - era o ponto do riso desbragado, irracional. Rita descalçou os "Redshoes" e calçou as "Redboots" e mostrou uma maturidade (e uma qualidade) superior aos seus trinta. É verdade que, naquela a que poderíamos chamar a "parte dois" deste "concerto", Tito poderia ter usado a sua vasta cultura livresca para tirar da sólida Rita momentos de antologia. Mas não o podemos censurar: Tito "Redlight" resolveu apostar tudo na comédia, no modelo de uma artista preguiçosa - todos sabem o quanto a Rita trabalhou esrtada fora para responder ao seu justo sucesso - mimada e mimalha, menina de seus pais e libidinosa. Esta última característica, sendo claramente o oposto da artista que esteve à nossa frente, classicamente contida e distante, embora próxima do seu público, mostra claramente o que os três conseguiram atingir no final: o cumprimento de um guião que, sendo induzido por Tito, foi cumprido brilhantemente por todos. Rita "Redboots" mostrou um estofo raro - não nos podemos esquecer de que, ainda que Portugal seja um país pequeno, nem sempre a cultura urbana do sul entende a absoluta ilusão do astismo nortenho, tantas vezes confundido com vulgaridade. Faltou apenas abordar a questão do domínio universal da cultura americana, que é "particular" em Rita, que a faz legitimamente sua sem qualquer vergonha. Mas Rita conseguiu dar uma resposta diferente de todas as que lhe ouvíramos até aqui à pergunta mais desesperante de todas: "Porquê Redshoes?"; consentiu com classe uma tangente à sua vida privada, interpretou brilhantemente o Bad Lila  como uma síntese de toda a primeira parte da conversa e concluiu com alma a sua música mais tocada de todas, "Choose Love". Levou dali o que lhe interessava, mais adeptos, e esse homem que foge a todas as convenções chatas e autistas do meio cultural português chamado Tito "redlight" Couto. Dois (três) corações grandes, verdadeiros artistas.

PG-M 2012
fonte da foto: facebook de "Conta-me histórias"

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