2012-04-10

Profilaxia da literatice


Sem qualquer ambição específica que não a de aprender e alimentar o vício dos livros, tenho "dialogado" transversalmente com escritores e escritoras desconhecidos ou esquecidos (alguns deles grandes sucessos ao tempo) de todas as épocas, e confirmo a minha suspeita: a qualidade não reside apenas nos nomes que resistiram ao tempo. A resistência ao tempo é um acaso, uma sorte ou um bom trabalho na recuperação de certos nomes. Dialogar com escritores desconhecidos é encontrar, entre eles, os conhecidos (e por isso não implica uns contra os outros, até porque a maioria convivia alegremente). Aliás, dou-vos um exemplo imediato: nunca gostei tanto de um russo como estou a gostar de Vassili Grossman, o que quer dizer que gosto mais dele do que de todos os outros russos consagrados de quem li muito mais coisas. E a quem ficaria a dever Rodrigues Miguéis, que vendeu centenas de milhares de livros em poucos anos? Deixou de servir? Aliás, não é questão de classificação ou escalão. Cada escritor de qualidade não tem comparação com outro escritor de qualidade. Se tem qualidade tem a sua voz e a sua estética. Pode repetir-se a si próprio, mas não decalca os outros. Até no tempo de Quixote. E no domínio da crítica literária, deus meu, se lerem a Maria Amália Vaz de Carvalho sabem que já ninguém faz crítica assim. E prossigo com uma certeza: falta tanta humildade, tanto trabalho, tanta leitura, tanto respeito, tanto silêncio a todos nós. Menos barulho, menos berros, menos vaidade, menos sentenças definitivas (hoje em dia há uma desespero em eleger os tipos definitivos neste ou naquele ramo), menos superlativos relativos de superioridade, mais absolutos sintéticos ou analíticos, menos comparativos, mais graus normais. E - apesar de reflexões recentes - mais carácter, mais bondade. E um exercício: tratar os de hoje como os tratam as boas livrarias: lado a lado com os clássicos - não acima nem abaixo, não numa dependência hierárquica. Também há muita gente a falar de livros que não leu e a citar escritores que não conhece. Falta sentido crítico perante o conhecimento que nos é disponibilizado. Muitos falam, poucos ouvem. Como diria Savater, hoje em dia lê-se um romance para se tirar o bacharelato, mas este escritor - e filósofo - prefere que o leiam já com o bacharelato tirado e vão procurar informação a outro lado. E se quiserem uma sentença ou um aforismo, tomem este: "Um bom escritor é o que escreve mal de vez em quando; um mau escritor é o que escreve bem de vez em quando". Deixem-se os génios - e o génio - em casa.

PG-M 2012

7 comentários:

Cristina Torrão disse...

Excelente!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Cristina. Beijinho para ti.

Rita Bonet disse...

Assino em baixo...
Devia existir um kit-humildade atribuido ao nascer.
Beijos e boa escrita

Fátima Laouini disse...

Excelente, excelente.
E serve para várias artes e talentos.
Genial final.:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Rita. Obrigado, Fátima. Quanto ao "genial":), não era o Confúcio que dizia que a humildade era a base de todas as virtudes? profunda gratidão, P

SEVE disse...

E a diferença entre mim/eu e um escritor é que ele escreve aquilo que eu penso.

Belo blogue.

Um abraço

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, SEVE:). Grande abraço. Essa humildade faz-te superar o escritor:). PG-M