2012-04-02

O cabrãozinho social (e os maridos das outras)


O excelente artigo "Amor, lujo e buona conciencia" (aqui) levou-me ao remate de várias reflexões que tenho feito sobre o tema da bondade e da decência - isto inclui uma recente troca correspondência com um amigo muito crítico da postura bondosa no mundo -, para chegar a uma conclusão curiosa: se procurarmos ser o melhores possíveis corremos o risco de passar a imagem de que somos esse modelo de virtudes de que fala o Javier. Ora, um modelo de virtudes só é socialmente suportável se, das duas uma: 1) se deixar calcar pelos outros, sem ressentimento, mágoa ou expectativa de reconhecimento OU 2) se fingir que é um cabrãozinho como os outros. Com efeito, são estes cabrõezinhos, os que andam pela vida com um aporte moral "mais ou menos" e só chegam "ligeiramente" atrasados a todos os lados e só apoiam os amigos "de vez em quando", e com os quais se pode contar só às terças, quintas e sábados, mas têm a porta e um sorriso sempre abertos, os verdadeiros sucessos sociais: nem têm má consciência nem deixam de ter. São "zen", não querem saber. Têm normalmente os melhores carros e as melhores casas e até as melhores mulheres (eu não sei se neste caso o grau comparativo de superioridade não deveria ser "mais boas") e as maiores dívidas e melhor vidas ("mais boas" outra vez?), e não poucas vezes são homenageados e premiados como os modelos de virtudes que nunca tentaram ser. O problema é que o verdadeiro modelo de virtudes chega ao fim da vida sem sequer saberem que ele é mais do que um banana metido nas suas coisas com a mania de ajudar os outros e muito bonzinho para família e amigos. Daí que o modelo de virtudes deva fingir ser um cabrãozinho social, tal como todos os outros, para que não constitua para eles uma ameaça e uma irritação permanente, porque "Os maridos das outras" (vídeo aqui) são sempre "o arquétipo da perfeição/ o pináculo da criação" (Miguel Araújo) e os maridos das nossas raramente suportam estar constantemente a ser comparados com essa gente exemplar. Já se só tivermos gente duvidosa à nossa volta, paz total.

PG-M 2012
fonte da foto

2 comentários:

Fátima Laouini disse...

:) Permita-me dizer que zen é um conceito demasiado avançado para os cabrõezinhos.:) De resto, estamos em sintonia.:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Esse Zen é o Ignozen, Fátima. o Zen dos parvos:).