2012-04-24

Meu amor, my valentine (literatura gestual)

Vai este texto sem data e a propósito dos muitos que se dedicam diariamente ao que escrevo e a todos os que o seguem, até porque não tem sido costume passar mais de uma semana sem lhes (vos) dar alguma coisa. Tenho de agradecer e pedir desculpa pelo tempo que passou sem notícias minhas. Encaro com espírito de missão a função, rima à parte. Desde a publicação de um livro meu por uma editora com o prestígio e a tradição de uma Dom Quixote, penso mesmo que é meu dever dar regularmente coisas novas aos leitores, porque isso tem a dupla função de me permitir aperfeiçoar certos registos e estimular a adesão ou dissensão. Tudo menos a passividade. E a vaidade. Não escrever nunca é motivado em preguiça ou falta de imaginação, porque eu não tenho a primeira e tenho excesso da segunda. Posso estar doente fisicamente ou ocupado profissionalmente. Nesta semana, foram ambas, e o profissionalmente alarga-se à escrita, porque em 2011 e 2012 meti-me num duplo projecto (um livro está pronto, o segundo vai ficar), e, se antes partilhava trechos em escrita, deixei praticamente de o fazer. É muito difícil, confesso, mas estar no mercado significa excesso de sombras. E eu estou muito bem com os bons que iluminam. Agradeço-lhes e deixo para reflexão o magnífico vídeo que Stella McCartney idealizou e produziu para o pai, e que tem uma espécie de poesia gestual daqueles a que chamo os dois cisnes negros: Natalie Portman e Johnny Depp. A canção é bonita, mas mais bonita se torna com esta visão de uma literatura de gestos. Se um surdo quiser ler um livro para uma plateia de surdos, faz assim. A letra é simples, mas comove especialmente gesticulada desta forma. Fez-me pensar no que seria um texto meu lido alto e acompahado por gestos. E como a literatura, que obviamente é já muito visual na intimidade de cada um, ganha uma visão colectiva. É diferente de lerem alto para nós os que ouvem. É uma representação, uma colecção de palavras visuais. Também para quem não ouve deve haver quem "fale" e "leia" melhor do que outros. Aqui o desempenho de Natalie é mais expedito do que o de Johnny. Nas televisões, o trabalho gestual é frenético. Mas como seria uma leitura vagarosa de um texto de que gostamos - um poema, o nosso poema favorito - acompanhado por gestos? Fico com vontade de fazer disso boa prática. Sempre me preocupei com quem tem mais dificuldades em aceder ao conhecimento. Até porque, normalmente, essas pessoas têm mais vontade do que quem não tem nenhuma limitação. Será o meu amor, my valentine. E para surdos podemos ler assim em qualquer parte do mundo, que não são precisos acordos ortográficos e o bom-senso gestual está sempre presente. Obrigado. Grato por estarem sempre aí. E agora comovam-se com os dois cisnes negros.


PG-M 2012

2 comentários:

Fátima Laouini disse...

Dois belíssimos atores, Pedro. Carisma, sedução fora do mundo...:)

Bem, gostaria também de lhe deixar um link. Perceberá porquê.

:)http://aefectivamente.blogspot.pt/2012/04/silencio-e-tanta-gente.html

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado por tudo, Fátima. Já fui deixar o meu contributo no seu excelente blogue. Beijinhos, P