2012-04-28

Eu subi ao monte Tabu e sobrevivi

É muito engraçado, quase divertido, compulsar as críticas cinematográficas e os comentários de espectadores com que decidimos ir ou não ir ver um filme. Por aqui, tendencialmente, vai-se a todas ou quase todas, porque o vício - negríssimo, intensíssimo - comanda. Eles, os críticos profissionais e os comentadores de pacotilha, validam a decisão de, neste blogue, se escrever mais sobre cinema do que sobre outra coisa qualquer.
Porque alguém tem de dizer às pessoas, em primeira mão, se o excelente filme que Tabu é se aguenta bem ou se é só mais um exercício académico. A resposta é que, mais do que se aguentar bem, escorre-nos pelo corpo na primeira parte e suspende-nos a atenção na segunda, que se torna mais exigente, mas nunca difícil. De facto, Tabú são dois. Não, não é só mais um exercício académico. É um verdadeiro filme onde é contada uma história belíssima superiormente escrita a meias pelo próprio realizador, Miguel Gomes, e Mariana Ricardo. De facto, Tabu é, na primeira parte, um delicioso pastiche de um Portugal de final de 2010 que parece de 1970. Isso é  conseguido pelo preto e branco doce, aveludado, de alto contraste, dessa primeira parte. A chuva é deliciosa. Flui maravilhosamente e dá um grande prazer. A beleza, nessa altura, torna-se inexorável porque, na analepse que constitui a segunda parte do filme, queremos saber o que aconteceu. Na primeira parte apaixonamo-nos pela Teresa Madruga e veneramos a Laura Soveral. Que maravilha. Teresa Madruga, a bater nos sessenta anos, é uma actriz quase sensual a fazer a contida e algo amargurada Pilar. Laura Soveral, a bater nos oitenta, é suprema no desespero da velha Aurora. 
A segunda parte é feita em preto e branco com grão, é semi-muda e literária. Uma espécie de leitura de livro colorida com grandes imagens. É mais exigente para o espectador, mas não deixa de ser deliciosa e não é difícil de ver,. Pessoalmente, acho a Ana Moreira magistral. Todos roçam, aliás, o nível quase perfeito de histrionismo e expressividade. A história é narrada com uma precisão e uma eficácia nada normais no cinema português. E marca, e vem-nos pele, e apetece voltar àquelas imagens, ter o filme em casa para o ver aos bocadinhos. E levar a Ana Moreira ao colo, um dia destes, a um óscar, que tal? E termino com a palavra que me remata estas crónicas cinematrogáficas: imperdível. Ou não escreveria sobre ele. Não por ser português ou académico, mas mesmo por ser excelente. O Miguel Gomes, ainda que pareça que nos despreza a todos com aquela cara de furão, trouxe-nos cinema (e literatura).

PG-M 2012

3 comentários:

Fátima Laouini disse...

Eu bem digo que gosto de cinema português. E bem digo que estou-me nas tintas para os críticos. E para os chatos e pseudo deste mundo.
Mt bom. E sim, a Laura Soveral consegue passar sensualidade na idade dela. Incrível. :)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Quanto à sensualidade, falava da Teresa Madruga, mas não tenho dificuldades em admitir que fiquei muito bem impressionado com a Laura, que também e uma beleza. Beijos, Fátima.

Fátima Laouini disse...

Sim, troquei o nome:)