2012-04-02

A condição da literatura


Já não há nada a fazer: Fernando Aramburu tem sobre mim o efeito da paz literária - é tão bom que me faz sentir completo e feliz, além de inútil. E que não haja dúvidas de que só perante esta completude da inutilidade e a certeza da desimportância se pode algum dia chegar a escrever uma página que faça o mesmo a outros.

E eu gostava de tentar explicar porque é que um Vassili Grossman me dá idênticas bênçãos, mas em termos de volumetria: à medida que se avança em "Vida e destino" alcança-se a certeza de, como escritor, nunca atingir nada de tão grande. Mas se a consciência da própria ignorância ou incapacidade é condição e chão de uma arte melhor ou a certeza de arte nenhuma, é por aí que todos deviam começar: ao espelho, constatando a sua própria pequenez e, então sim, começando do zero.

No entanto, a literatura sempre foi, em todos os séculos, um equilíbrio insano entre os que dela fazem o seu ofício ou nela obtêm o seu emprego, os artistas que lhes dão matéria-prima e os próprios artistas entre si. Não é condição de boas literaturas que os artistas se estimem entre si, mas é certamente condição que os empregados da literatura não tentem diminuir quem cria o que lhes dá emprego. Ora, é precisamente o que temos hoje um pouco por todo o mundo. Temos e teremos até que uma nova ordem permita que se perceba que os livros, podendo vender-se, não se devem vender sem escritores. E nem se diga que o facto de os editores e livreiros terem a cara e o corpo dos escritores para vender o livro como eles o querem vender é argumento para contrapor o que acima fica dito. Na verdade, muito antes disso, o livro deixou de ser de quem o escreveu, não no sentido benigno de que o livro é dos leitores, mas no sentido maligno de que o escritor, ao assinar o seu contrato num tempo em que a maioria entrega o livro ao editor praticamente sem custos ou compromisso deste, deixa de ter domínio do processo. O facto de alguns bons editores e livreiros tratarem os seus escritores como o que eles deviam ser sempre, o topo da "cadeia alimentar", não deixa de ser uma excepção à regra de que estão hoje efectivamente a meio dela e de que todos sabem com infinita sabedoria o que é bom para o seu livro menos ele.

É por isso que o Fernando Aramburu faz de mim um homem inútil e feliz. E a constatação de que, no passado, em tempos miseráveis (bem piores do que estes) se publicaram obras-primas, exponencia a minha inutilidade e a minha felicidade. Porque vai ser assim sempre, mesmo que seja cada vez mais difícil encontrá-los.

PG-M 2012
fonte da foto

1 comentário:

ana b. disse...

Olá Pedro!

A sua editora tratou bem o seu livro:)

http://www.hipersuper.pt/2012/03/30/expositor-da-leya-ganha-ouro-nos-premios-criatividade-do-mp/

Parabéns!