2012-03-21

Os vivos mortos (by The Walking Dead)

Não nos iludamos: é uma série americana. Uma série que eu excluí, à partida, daquelas a que dedicaria horas de vida. O meu preconceito contra filmes com zombies sempre se espraiou em pleno: nunca lhes achei piada nenhuma. Sempre gostei de tensão, de horror, mas, caramba, zombies não me apetecia. Acontece que a virtude dos zombies de "The Walking Dead" é muito menos o seu realismo e muito mais o seu conceito. E o que nos agarra às duas temporadas - terminou ontem a segunda na Fox - é a própria dualidade da condição humana. O enredo desenrola-se num fim de mundo próximo, um apocalipse, o que a torna minimal, ou seja, à medida do espectador que se habitua a um grupo restrito que consigo convive semanalmente (já agora, por menos impressionável que se seja, não aconselho a que se vejam mais de dois ou três episódios seguidos, para quem está a pensar pôr-se em dia: aquilo instala-se na cabecinha, quer queiramos, quer não).
À partida, pois, não havia paciência para aquela dinâmica do zombie que morde um tipo normal que entra em mutação e depois vai surpreender outro tipo normal, aterrando-o e, eventualmente, matando-o, fazendo-o mudar de equipa.
Não, aqui o conceito foi simplificado ao máximo, e é isso que torna a série apelativa: há um vírus e uma epidemia desse vírus que provoca a reanimação mecânica dos corpos dos mortos. Esses corpos não têm actividade cerebral, são lentos e desengonçados - embora possam correr - e só procuram seres vivos para devorar ou desmembrar. A única forma de os exterminar é destruindo-lhes o cérebro. Nada mais simples.
Podemos aditar a isto a contenção, que é sempre uma virtude na arte: não há, praticamente, ataques surpresa de zombies. Há essa inevitabilidade: como não se cansam nem param por nada até atingir o seu objectivo, se a sua presa se distrai, tropeça, corre para o lado errado, é apanhada e morre. Pior: se atacam em grupo, é quase impossível vencê-los - ou é um erro tentar - e o melhor é sempre fugir.
Ora, é bom que se diga que há episódios onde, praticamente, não aparecem zombies. Basta a sua possibilidade para criar uma tensão crescente. O melhor desta série é a forma como, numa situação limite, joga com as matizes de cada personalidade. Rapidamente aprendemos que um homem de família é muito mais perigoso do que um solitário, porque defende a sua prole a todo o custo, sendo capaz de matar o seu igual sem contemplações. Vemo-nos ao espelho. Observamos modelos de personalidades que pensamos conhecer. Colocamo-nos na pele deste grupo, pensamos o que faríamos nós. As decisões nunca são fáceis, e há cenas verdadeiramente terríveis - não pelo que se vê, mas pelo que significam. Confesso que a mais forte das duas temporadas foi, para mim, a que culminou no desfecho do caso de uma menina chamada Sofia. Não vou revelar em que sentido, claro.
O facto é que dei por mim, hoje mesmo, a discutir com outro aficionado o que faria para proteger um grupo assim. Falei no velho fosso inundado dos castelos, mas ele dizia que, eventualmente, uma multidão zombie, como a que saiu de Atlanta no final da segunda temporada, com um objectivo específico, podia ultrapassá-lo. Falou-se em cercas electrificadas. Em fortes. Isto só pode ser sinal de um excelente série, no meu entender a melhor desde "Lost", que, tendo as suas falhas aparentes em termos de argumento (principalmente na primeira temporada, em que deixou pontas incompreensivelmente soltas), pode colmatá-las nas temporadas seguintes ao recuperar as histórias que deixou por contar. Para já, e à vista do último episódio da segunda temporada, que deixou dois vectores interessantes que vamos querer seguir, a espera por Outubro de 2012 e pela terceira temporada será inquietante. Imperdível, claro.

PG-M 2012
fonte da foto

2 comentários:

SEVE disse...

Mas já apanhei uma decepção tão grande com "AS BENEVOLENTES" que até tenho "medo" destes calhamaços...é que teciam loas, os maiores encómios (magistral, fenomenal, deslumbrante, etc.) e é uma pastilha das antiga aquele Jonathan Littell...

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Não quereria comentar a mensagem que contém a fotografia do "Vida e Destino"? Se era essa, e creio que era, posso dizer que esta não é, com toda a certeza, uma decepção. Mas eu tenho um conceito muito próprio de obra-prima. Não consigo lê-la de um fôlego. Quando é mesmo muito bom, faço-me acompanhar de um livro durante anos, vou relendo pequenos trechos e avançando muito devagar. Aliás, penso que é por isso que não releio: porque leio relendo. Ainda um destes dias aconteceu precisar de me desentoxicar literariamente para escrever e fui ao livro.