2012-03-16

O aforismo do amor e do ciúme

 O amor é forte como a morte, o ciúme cruel como o inferno. 

— Assim o declara o texto original hebreu, o grego, o siro e o arábico: Crudelis sicut infernus zelotipia. Todos sabeis que à morte, a qual é trânsito e passagem, se seguem outros dois termos de que se não passa: ou inferno ou paraíso. Pois, se o amor é como a morte: Fortis est ut mors dilectio, por que se não segue também depois do amor ou paraíso, ou inferno, senão inferno somente: Dura sicut infernus aemulatio? Porque o amor desta vida e deste mundo é uma morte que só tem precitos, e não tem predestinados; é uma morte pela qual sempre se vai ao inferno e nunca ao paraíso. O paraíso do amor — se o houvera — havia de ser amar e ser amado, e amado com certeza de nunca ser aborrecido. Mas como não há, nem pode haver no mundo, nem este amor, nem esta certeza, senão as dúvidas, os escrúpulos, as desconfianças, os receios e as suspeitas de se me amam ou não me amam, ou de que já me ama menos que dantes, ou que trocam o meu amor por outro, ou de que outrem pretende o que eu amo, em que consiste por vários modos o tormento crudelíssimo do ciúme, este ciúme sempre duvidoso, sempre crédulo, sempre fixo na imaginação, e nunca satisfeito, este é o inferno inevitável e sem redenção a que todos os que amam se condenam, e em que são atormentados duramente, sem fim e sem remédio: Dura sicut infernus aemulatio.

Padre António Vieira, 1608 - 1697, Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma, parte 2

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