2012-03-31

A fome de vida


A única fraqueza do filme de Gary Ross, "The Hunger Games", é o contexto onde é vendido: um filme americano não pode demorar três horas, não este, que vai certamente devorar faixas etárias que uma obra monumentalmente longa não apanharia na rede. As duas horas e meia que, mesmo assim, tem, passam num ápice. Os primeiros dois terços do filme são cinema em grande forma - na forma como olho para esta arte, praticamente perfeitos. O último terço foi acelerado: mais meia-hora e era possível manter o nível estratosférico. Isso não faz dele um filme menor, só um filme a precisar de uma versão director's cut. Será sempre um dos melhor de 2012. Mas o efeito que em nós provocam aqueles primeiros dois terços é devastador: experimentem sair da sala de repente - vão notar como o vosso instinto de sobrevivência está ligado no máximo, como o vosso corpo está, por assim dizer, deformado pela forma como acabou de assistir da substituição da humanidade pelo entretenimento. Nada que não vivamos já hoje - diariamente -, mas ainda assim arrepiante da forma como o conta a autora: temperado por pormenores bem imaginados, como os canhões que anunciam cada morto no jogo. O livro de Suzanne Collins foi escrito numa perspectiva visionária do nosso tempo, o filme é ácido, cáustico, magistralmente fotografado e com uma enormíssima direcção artística. Jennifer Lawrence, Lenny kravitz e Wes Bentley são os rebuçados, Stanley Tucci e Elisabeth Banks os actores. A não perder.

PG-M 2012

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