2012-02-23

Pennies from heaven ("O Artista")

Nenhuma arte é muda, ainda que o silêncio seja essencial a todas elas. Um livro é lido em silêncio, mas projecta-se dentro de cada um de nós como cinema. As palavras talvez apareçam - e devagar - na poesia, as palavras como forma, como desenho. E há filmes cujo ritmo remete para a literatura. "O Artista" está longe de ser um filme mudo, mas está perto de ser um filme perfeito. Explique-se. O filme tem tido a crítica óbvia de que não basta a estética e o desempenho: é preciso uma boa história. Mas, caramba, esta é uma boa história. Simples, mas desde quando é que a simplicidade é um defeito? E nem sequer é bem um boy meets girl, mas antes Star meets girl, girl works her way up, star works his way down, old star makes way for new star, girl becomes star, old star falls, new star protects old star.
É maravilhoso, repito, maravilhoso, ter a oportunidade de perceber, na década de dez do século vinte e um, o que encantava as pessoas há cem anos. Raras foram as histórias filmadas no chamado cinema mudo que tinham argumentos complexos: isso não era possível. Ainda que se olhe para o Rudolfo Valentino - a que se cola a composição do George Valentin de Jean Dujardin, - com encanto, os argumentos que ele protagonizou seriam hoje considerados ineptos. O realizador e argumentista Michel Hazanavicius quis, claramente, deixar a linha narrativa próxima do original que lhe serve de inspiração estética. E digo inspiração estética porque em momento algum quer este filme reproduzir com precisão os filmes de há cem anos ou as condições em que eram vistos. Este filme foi uma grande ideia e, se nem sempre as grandes ideias são bem executadas, esta foi. É surpreendente o efeito que o filme provoca. Funciona como uma deliciosa pausa num mundo ruidoso e em permanente actualização: acompanhar uma história sem vozes e escassos diálogos aguça os restantes sentidos: o olhar do espectador bebe as posturas, as expressões, os pormenores dos cenários - já de si simplificados pelo preto e branco. E fico sem dúvidas de que Jean Dujardin é o actor do ano, porque liga e desliga a necessária histrionia de forma desconcertante. Nunca pensei sair do cinema a dizer que o homem não é "forçado". Mas não é. E depois tem uma elegância nos gestos que não é fácil encontrar nos actores dos nossos tempos - só parece fácil porque anda perto da perfeição. E embora dance bem, não dança maravilhosamente e a única crítica vai para a cena final: a culpa nem é de Jean Dujardin, mas da coreografia, esta sim histriónica quando o não devia ser, o que prejudica os actores, embora Bérénice Bejo se saia muito bem desta injusta prova - a dança devia ter tido a contenção que todo o filme mostra, mas isto não ensombra o que este filme é: a certeza de um mito antes do tempo, mas uma certeza. Perdê-lo é perder um momento de extrema beleza que não se experimentará tão cedo. Perdê-o é perder a visita à estética dos nosso avós. Perdê-lo é perder uma visita ao primeiro cinema e às primeira estrelas. Perdê-lo é perder um momento de paz absoluta e de poesia imagética. Perdê-lo é perder uma das melhores ideias da década, talvez até do século, ainda melhor exectuada do que "Hugo", e eu gostei muito de "Hugo". Um ano em que nos são oferecidos dois filmes de absoluta celebração do cinema de todos os tempos tem de ser...celebrado. Confesso que quase chorei no fim deste. Uma espécie de gratidão automática a quem se lembrou de fazer isto - paguei menos de cinco euros por tanto. É barato- talvez o vá ver outra vez para compensar (e este é dos que se vê duas ou mais vezes). Ainda ressuscitaram a grande Rose Murphy, com Pennies from Heaven, Ludovic Bource escreve uma grande banda sonora (tinha mesmo de ser) e toda a gente se apaixona por Peppy Miller. E embora não nos devamos enganar - este é um filme americano, não francês -, transpira a maior virtude dos americanos, quando sabem acolher e celebrar o mundo sem o engolir. Principalmente quando o mundo os vai celebrar a eles.

PG.M 2012
fonte da foto

1 comentário:

Maninha disse...

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