2012-02-13

Os que vão morrer saúdam-vos

A propósito desta sucessão de mortes perto e longe de nós, que culminou com a de Withney Houston, é curioso observar como a morte se constitui como uma virtude e não devia. Quantas pessoas, na véspera da morte da cantora, ao ser-lhes pedido um comentário à dita, diriam bem ou falariam dos tempos em que ela os tomou pelos pés de arrebatamento? Também assim os prémios, que de repente nos recordam a existência do premiado. Não tinha morrido, já? E depois cai-se num choro ou numa exaltação colectiva, porque se sente que é a oportunidade de libertar as palavras que não guardamos para os vivos não premiados. Nada contra velar os mortos com propriedade, nada contra os obituários, epitáfios, editoriais. Mas a verdade é que, se não andássemos com a cara virada à morte ou à normalidade dos dias - e os tesouros encontram-se em dias regulares, não no meio de festas, barulho e exaltação -, talvez tivéssemos a percepção clara do efémero e não desperdiçássemos a oportunidade de dedicar palavras mais contidas no tempo certo às pessoas certas. E contássemos as nossas histórias de vida, que os outros estão disponíveis, pelo menos, para ler quando lhes apetecer. A da Withney deu-se há vinte anos, quando saíamos com um casal amigo do Lumière, no Porto, onde tínhamos ido ver "O Guarda-costas" e o Fernando comprou o single "I will allways love you" (ainda hoje o mais vendido de sempre por uma mulher), que ouvimos na aparelhagem brutal do seu Honda Civic vermelho durante toda a noite, em "repeat" - claro que ele já não tem o Honda, nem o cd (já era cd, estava nos princípios, e como a música era cheia de silêncio, pareceu-nos tudo perfeito), nem nós temos o Lumière, mas temos ambos as mesmas mulheres. A semana passada morreu o meu colega Zé Maria, pelo qual eu tinha passado sem dar um abraço ou um aceno três dias antes, num centro comercial. Esta semana morreu o meu colega e vizinho Coelho dos Santos, grande advogado e ex-deputado, que eu via passar há trinta e quatro anos na mesma rua do anjo a norte, de mão dada com a sua namorada, estariam ambos a meio dos oitenta. Só por uma vez tive coragem de lhe dirigir a palavra, estávamos sozinhos os três na Casa Barbot e eu procurava os tectos de que era suposto o meu bisavô ser o autor. O doutor não me conhece mas sou seu vizinho há trinta e três, colega há dezasseis, o doutor foi advogado da minha mãe e do meu avô, é uma honra cumprimentá-lo. Vi na cara dele que talvez a honra lhe passasse fina entre os dedos, que ele era pessoa de coisas grandes e eu de pequenas, mas, caramba, disse. E também está bem que nos indignemos uma vez ou outra pela morte que nos choca e pela revolta que nos toma por não termos sabido dizer antes as coisas que queríamos dizer e dizemos com tanta força no luto. Mas não está pior viver com a morte ao lado, com ela e com a garantia e naturalidade do sofrimento que, dando-nos um peso indesejado no olhar e tirando-nos amplitude à inocência, é o que levamos desta vida, só por acidente neste sorriso em que insistimos e bem. Vamos todos morrer e é bom que estejamos a fazer o mais possível aquilo que gostávamos de fazer à morte, seja praticando a solidão, seja semicerrando os olhos de charme por irmos felizes a qualquer momento. Manuel António Pina escreveu este poema nas suas desconcertantes sabedoria e simplicidade, e, se é certo que sem prémio ou morte muitos lhe ofereceriam trejeitos, eis na forma pura o que também penso:

OS MORTOS


Eu sei, é preciso esquecer,
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.


Tanta memória! O frenesim
escuro das suas palavras comendo-me a boca,
a minha voz numerosa e rouca
de todos eles desprendendo-se de mim.


Porém como esquecer? Com que palavras e sem que palavras?
Tudo isto (eu sei) é antigo e repetido; fez-se tarde
no que pode ser dito. Onde estavas
quando chamei por ti, literalidade?


E todavia em certos dias materiais
quase posso tocar os meus sentidos,
tão perto estou, e morrer nos meus sentidos,
os meus sentidos sentindo-me com mãos primeiras, terminais.


Manuel António Pina
In "Poesia,Saudade da Prosa"
(Uma antologia pessoal)


PG-M 2012

6 comentários:

Cláudia Mealha disse...

Muito bem e como sempre muito bonito

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Cláudia. Na parte que me cabe:).

► JOTA ENE ◄ disse...

ººº
Quer-me parecer que é um excelente tributo ...

Gostei da narrativa !

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Jota.

Fátima Laouini disse...

Fantástico título. Gostei do que vi. Vou voltar. E o blogue tem uma estética que me agrada,o impacto visual é forte e convidativo.


Ah! Cheguei aqui via sugestão da Ivone Costa em A Ronda dos Dias.:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Fátima. Volte sempre.