2012-02-07

Nostalgia do cumprimento de um sonho

É verdade que estou profundamente grato a todos os que me aturaram no processo de promoção turística da ponta do meu icebergue (ou seja, a edição profissional do primeiro livro visivel). É verdade. Claro que todos os círculos profissionais têm a sua dose de autismo e vaidade, claro que o círculo literário português é mais pequenino e se torna mais doloroso porque o experimentamos com pretensa pulsão artística e metade dos nossos novos amigos nos vêm alertar que aquilo é uma coisa séria e profissional, não atreita a romantismos. Claro que não há só bons profissionais: há alguns funcionários de mangas de alpaca que sabem tudo e ditam sentenças em vez de reflectirem, verdadeiramente, nos dias seguintes do fenómeno livro, e claro que o escritor é, hoje em dia, uma figura menor e chatinha - ainda que não para todos. Claro que me senti desconfortável e burro nas televisões, nas rádios, nas revistas, mas mesmo assim fui bem divulgado por quem não tem obrigação nenhuma de me divulgar e tenho de agradecer, como agradeci, a todos. Agradeço também, sem qualquer ironia, aos que optaram por não me divulgar, mas o ponderaram. Não desengraço com os que deliberadamente me excluíram: eu tenho um feitio especial, uma mania de que as pessoas ou são autênticas comigo ou podem ir dar uma volta ao bilhar grande. Isso é estúpido e mesquinho, e por isso também cometi alguns erros de diplomacia, que assumo. Mas só isso. De facto, no momento em que é preciso optar, que é este preciso momento, e eu agradeço o sossego de voltar à escrita e tenho quase o meu quinto romance pronto, eu opto por estar de bem com deus e com o diabo - no melhor sentido, porque há um bom sentido para este cliché -, até porque acho que todas as pessoas mal intencionadas são bem intencionadas, desde que fiquem à frente dos outros. Repito: não é ironia. Acredito verdadeiramente na bondade como reduto último da natureza e do carácter humano. Não vejo mal nenhum em sorrir e abraçar os que nos anunciam como piores: bem vistas as coisas, ou estão a ser vítimas de uma injustiça, ou, se são mesmo piores não nos querem verdadeiramente mal - querem apenas bem demais a si próprios. Já contei muitas vezes a história do tipo mais pérfido que se fez meu amigo e nunca me traiu porque eu sempre o tratei bem. Ao princípio, por desconhecimento. Depois, porque - mesmo avisado - já tínhamos entrado numa roda de mimos e favores de parte a parte. Esse rapaz, até hoje, só foi bondoso comigo. Porque hei-de eu querer mal a quem é maldoso? Este é o fim de uma reflexão prolongada: esta foi a primeira função da minha vida em que houve algumas pessoas a disparar com maldade pura. Tenho já um pedacito mais de quarenta anos, pelo que não me posso queixar. Não, não é a maldade que vence, tampouco o egocentrismo. O egoísmo sim. Mas se houver paciência para os egoístas somos capazes de lhes exaltar algumas virtudes. E a mediocridade? O que fazer da mediocridade? Bom, é ela que batalha pelo poder: temos mais é de a suportar, tentando que nos ouça de vez em quando, porque nunca seremos capazes de usar das mesmas baixezas. E esperar que alguém faça o mesmo, com paciência, se nós próprios tivermos algum mau momento. Tolerância, acima de tudo. Portanto, a decisão é muito simples, e equivale ao que os melhores amigos sugerem ser a atitude "zen": aceitar com gratidão tudo o que vem à rede, lidar com a possível lucidez e sabedoria todos os que se cruzam connosco e aprender com eles. Nunca passear superioridade.

Devo dizer que os meus treze leitores em Portugal (juntando livros, blogue e facebook), quatro no Brasil, três em Moçambique, dois em Angola e um em Goa merecem um pedido de desculpas: continuo a ter emoções em excesso, mas agora escondo quase todas nos livros do futuro. Para este parágrafo há uma conclusão bonita: quando por brincadeira escrevi o número de leitores fiquei todo orgulhoso. Mesmo que sejam só esses. Confesso também que não foi de propósito, mas por limitação, que fiz render as minhas sessões de autógrafos - todas duraram horas, não pelo número de pessoas, mas pelo tempo que passei com cada pessoa. Creiam ou não, sinto-me em dívida para com todos. Da próxima farei como o grande Saramago - só assino- mas introduzo uma inovação: olho-os nos olhos. Que tal? Até 2013.

PG-M 2012

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