2012-02-21

Guia para distinguir uma avestruz de um falcão

Pelas oito e meia da noite já consigo apanhar o Archie Bunker, a Edith e o midhead a serem corrosivos com a greve, quando acaba salto para o Seinfeld e do Seinfeld para o John Stewart e a lucidez, a que se tem seguido o Conan O'Brien, a leitura de suplementos literários, revistas de cinema ou rosa - para perceber os limites das pessoas -, os livros, as "minhas" séries para entrar pela noite até o sono chegar. Não consigo evitar as notícias, porque se expandem e inundam, sempre as mesmas, sempre sobre o mesmo, nem os comentadores, sempre os mesmos, sempre sobre o mesmo, mas longe de mim condenar a priori a inteligência de políticos e cientistas e a astúcia de jornalistas que fazem o possível para o dinheiro não os perverter e dominar totalmente. Mas, parecendo que quem tem a cabeça na areia sou eu, eu sei, ó se sei, que quem segue as notícias e o futebol e os especiais informação e os debates económicos nessas mesmas horas em que eu me deixo inebrirar/ arrebatar pelos verdadeiros génios, está bem mais alienado e menos lúcido ao fim dessas horas todas, e sei, ó se sei, que é subtil o domínio lobista sobre a consciência das pessoas. O que me custa é o aparato de anarquista que qualquer pensante dá quando discursa assim: a esmagadora maioria das pessoas está, obviamente, no grupo dos que fizeram a audiência desses blocos noticiosos e desses programas especiais de economia e futebol. Não podemos dizer que são simplesmente estúpidos. Podemos apenas dizer que os que têm o poder político e mediático estupidificam exponencialmente, às vezes sem querer, às vezes querendo, as mais das vezes dizendo que querem e sabem o que queremos. Outro dia perguntei a um empregado faz-tudo de um milionário, que está o mais baixo possível na linha hierárquica social de um trabalhador, sendo mandado fazer tudo e desconsiderado por todos acima dele, que me falava entusiasmado, pela milésima vez, de um dos populistas de consumo diário (e são tantos) sem ter armas para perceber a armadilha em que caía: perguntei se ele desmobilizaria se visse um actor conhecido, todos os dias, dizer poesia durante meio minuto no telejornal, ou programas a falar das maravilhosas aventuras de quem faz literatura, teatro, cinema. Claro que ele diria sempre que não, mas o brilho nos olhos das pessoas não mente. E também lhe disse, desculpe, não sei se lê, mas desgraçado de quem não lê. A resposta foi surpreendente para quem bebe todos os dias no café com os inúteis a quem pagamos a baixa e o subsídio de desemprego para guardarem as portas de cafés todo o dia: disse-me que se lhe dessem bons filmes e séries, não tinha de as sacar, agora que todos os videoclubes das redondezas fecharam. Que se lhe trouxessem livros lia. E que ficava vidrado a ouvir o Vitorino Nemésio há trinta e tal anos. Os tempos mudaram, dir-me-ão, mas eu digo-vos que o que mudou foram as pessoas, que deixam que os façam de estúpidos e até para pensar têm preguiça. Todos os canais noticiaram hoje que o Eusébio tinha mudado a medicação - dizer que enlouqueceram era arriscar ser acusado por qualquer azar futuro do Eusébio. As pessoas passam o tempo e deixam-no passar sem o tomar nas mãos. Afinal ele replicou-me que lia, sim senhor, porque se não lesse já tinha enlouquecido. Tinha embrulhado num pano o "Clarabóia", do Saramago. É o último dele, disse-me. Pois, o primeiro.

PG-M 2012

2 comentários:

euexisto disse...

escreves bem. belo blog. a ver se volto cá, se amanhã já não me tiver esquecido

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado. Se te esqueceres é sinal de que alguma palavra se incorporou no teu sistema e te fez andar alguns centímetros adiante. É ainda melhor do que se te lembrasses:). Obrigado.