2012-02-01

Chuva

Quando se acorda menos disposto, o facto de estar a chover não ajuda, excepto quando a chuva é, em si, o objecto do dia. E quando se descobre que vem de sul e o vento é suave e a temperatura na praia é sequência do corpo, ou seja, não corta a pele, há quase um ânsia por aquela corrida da hora do almoço. E se a corrida vem e começa a chover torrencialmente logo nos primeiro metros e se pode abrir os braços ou dançar ou cantar sem parecer louco - e isso é possível nos passadiços de madeira abandonados em dias como este - a palavra "purificação" passa de metáfora a facto. Ainda por cima reparei, pela primeira vez, nos pequenos seres que andam a correr desesperados sob o passadiço quando passo: não são ratos, são pequenos pássaros que se abrigam dos pingos mais grossos. Quando se aproxima o meu corpo de bem mais de cem quilos, o passo pesado, e quando passa o meu vulto de quase dois metros, uma ave do tamanho de uma noz não pode ficar. E  são muitos que levantam voo. Sorrio, volto para trás na linha da capela sobre o mar e passo à areia, o vento é doce pelas costas, e embora a coluna se ande a queixar da areia que afunda, a que a chuva molha é a mais fácil de todas. Se eu não gostasse de fugir para a espuma, de sentir o mar em cima, não custava nada. Mas é no mar que se dissolve o lado mau e se sintetiza o bom.
E pelos milhares de quilómetros que corri à chuva, houve sempre, mais ou menos de cem em cem, um corpo misterioso a libertar-se do guarda-chuva e a enfrentar o cinzento escuro, onde os piores pensamentos dão lugares aos mais leves e tudo se organiza na ordem devida.

PG-M 2012

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