2012-02-05

The Charlize one woman show



Querida Charlize,
Já não vale a pena clamar que não gostamos das mulheres pelo que aparentam. O próprio Matt (Patton Oswalt), no filme de que aqui curamos, Young Adult/ Jovem Adulta, treplica quando tu lhe respondes que gostavas do Buddy (Patrick Wilson) porque era um bom homem: "E os outros homens não eram?". Pois, se o Buddy fosse feio talvez não adiantasse ser bom homem. Também não adianta mentir: foi o teu rabo no reclame da Martini que nos deu uma espécie de contraponto para o teu trabalho como actriz. O problema é que durante anos se pensou que tu te afirmaste porque todos esperavam pouco de ti. Transportei a tua bandeira quando ninguém dava cinco tostões por ela, como a da Hale Berry (para a qual tive de me livrar da tua), como a da Marion Cotillard (para a qual tive de me livrar da da Hale). Preocupava-me se conseguirias algum dia igualar o filme em que tens o teu desempenho mais brilhante (não, não é o que te deu o óscar, Monster, mas sim Terra Fria/ North County), e aqui está ele: porque tenho a regra de considerar sempre mais difíceis os papéis em que o actor, basicamente, faz de si próprio (no sentido social, claro), não tenho dúvida de que este foi o teu melhor desempenho de sempre. Autêntico, focado, inspirado, tu, que és esteticamente sublime e fazes sorrir por seres esteticamente sublime (sempre que punhas um trapinho ou um tracinho no filme), também consegues ser dramaticamente perfeita, ao ponto de ser quase impossível apontar-te um erro, um overacting, um underacting, enfim, o que quer que seja. O Jason Reitman não esteve com grandes rodeios: temos um "one woman show e não vale a pena disfarçar: centremos a câmara na Charlize a ver se ela se aguenta. O teu olhar possesso no bar, quando te apercebes de que a "tua" música era também a música deles (The Concept - Teenage fanclub) ficará sempre, na minha bitola e espero que na de muitos, como um momento de grande cinema de actor. Não me costumo queixar das não-nomeações para óscar e tu já estiveste nos globos, mas não se deixa passar à conta de filmezinho simpático o espectáculo de uma grande actriz. Queria Charlize, com este ganhaste um jantar. Podes cobrar quando quiseres.:)

PS: permitam-me recomendar, quase no sentido inverso deste (de como as aparências pouco importam e de como é possível ser-se feliz num ambiente quase niilista), um que me passou pelas mãos este fim-de-semana e onde o conhecido pequeno grande actor Peter Dinklage recentemente vencedor de um Emmy e de um globo de ouro por "Game of Thrones", está muito bem. É um delicioso e quase ignorado filme de 2003: A Estação/ The Station Agent. Imperdível.

PG-M 2012te da foto

3 comentários:

ana b. disse...

Belíssima interpretação, é certo!

Também já vi o "A Estação" e gostei muito. Há um outro, do mesmo realizador, também imperdível ( é posterior a esse), intitulado "O Visitante": é outra pequena pérola! Não perca!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

E então a Charlize?:)

ana b. disse...

Tem uma interpretação fantástica!!
E concordo consigo: está esplendorosa na cena do bar! Ela consegue transmitir com o olhar um misto de sentimentos: começa com perplexidade, passa por um olhar zangado, com uma certa raiva, até, mas, sobretudo, transmite dor e uma enorme mágoa. Soberba!