2012-01-06

Tajabrincar?

Diz o Miguel Sousa Tavares que programas como "A casa dos segredos" deviam ser considerados crime e proibidos, e eu tendo a concordar com ele.
Enquanto existem, contudo, passam por mim como a realidade que são: televisão.
A televisão que se resume, hoje, a um conjunto de iluminados que sabem o que todos queremos e vão (des)nivelando a oferta por essa bitola ideal - já nem adianta defender que se vende qualidade da mesma forma que se vende lixo. A preguiça e o cilco vicioso "tenho de garantir o meu emprego"/ lobbies faz o resto.
E espreito pelo buraco, sim, até porque o argumento daquilo é quase sempre superior ao de qualquer novela. Não está aqui em causa a justeza do resultado para os concorrentes: eles já sabem que vão estar sujeitos a um massacre psicológico que ultrapassa todos os limites. Agora, que não reste dúvidas de um facto incontornável: nenhum de nós é melhor (ou pior) do que eles. Nós somos aquilo.
Observar homens e mulheres como ratos em laboratório deixa-nos tirar algumas lições úteis para a vida, e não é, certamente, o profissionalismo quase perverso de uma Teresa Guilherme (que muitos criticam porque gostavam de ter o poder que ela tem e outros desprezam por considerar que ela tem poder a mais e o exerce discricionariamente, ao sabor dos seus caprichos, o que, podendo ser verdade, não deixa de ser uma acusação espantosa no clima de lixo televisivo: eu só sei que há uma diferença abissal entre quem nasceu para fazer aquilo e quem tentou imitá-la).
Por outro lado, não me espanta a fama instantânea: três meses a ser exibido em horário nobre faz dos concorrentes personalidades mais requisitadas e incomodadas, alvo de verdadeiras histerias, do que muitos palermas com fama feita há anos. Mais palermas ainda do que eles, a bem dizer, mas arrogando-se o direito a um lugar porque dão cabo da nossa paciência há muitos anos.
Eu dizia que o mero facto de uma pessoa se candidatar a um programa destes é mau sinal e demonstra uma deficiência de personalidade: hoje já não sei se é mesmo assim. Nesta "Casa dos Segredos 2", em particular, foi muito curioso observar a reacção de crianças crescidas - como o eram 95% dos concorrentes - a alguma maturidade, e a reacção foi quase unânime: a maturidade é pérfida.
Também nunca cheguei a perceber a razão de os livros ficarem de fora, fora o simbolismo próprio de regimes totalitários: eu ainda tentei mandar o meu, mas sem sucesso:). Há que ter o campo de concentração a funcionar em pleno.
Por último, o mistério: talvez com a excepção de dois familiares e da excelente jornalista Ana Almeida, que descontraidamente fazia das galas verdadeiras e desempoeiradas noites de pândega no seu facebook, não encontrei mais nenhum ser vivo das classes A/B e C1 que confessasse ver, nem que fosse de vez em quando, o dito programa (análise às audiências aqui).
Ainda que a maioria das audiências estivesse nas classes baixas, estão, pois, por explicar as altíssimas audiências nas classes A/B e C1 (perto de 35%). Eu só encontrei quatro ou cinco "melros" desses milhões.
Já sei: copiar e colar - entre pessoas perto da perfeição não se discutem certas coisas.
O que também é sintomático da técnica da avestruz de que esta nossa curiosa espécie animal abusa.
Tajabrincar?

PG-M 2012

6 comentários:

SMP disse...

Não me perguntaste a mim. Eu via, e gostava de ver. E faz-me falta, confesso.

Há muito tempo que me preocupa pouco ou nada o que possam pensar os outros sobre a coerência da minha pessoa, no que aos gostos se refere. Cresci a ler Kundera aos domingos e a Ragazza à segunda-feira; não sou menos (às vezes penso que sou mais) por isso.

A esse respeito, só me apetece citar Terêncio: «Homo sum: humani nihil a me alienum puto». Conhecer a humanidade faz parte de ser humano. Não apenas conhecer aqueles seres que povoavam a casa, mas conhecermo-nos a nós, e aos que nos rodeiam, pelas nossas reacções a eles e aos seus dramas.

A propósito, o teu post de ontem é de uma tal lucidez e auto-análise que chega a doer.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Sandra!:) Fantástico parágrafo que aqui deixaste.

ana b. disse...

Pedro:)

Não percebe porque é que os livros são proibidos!? Então se eles se pusessem todos a ler ( o que eu duvido...) não iriam interagir uns com os outros e lá se iam as pérolas de diálogos ( e não só...)que fazem a delicia dos espetadores:)

Confesso que não vejo o programa. Assim como não vejo outros. Ligo a tv às 22h para o noticiário da rtp2 e o Diário Camara Clara e fecho-a às 22.45. Exceção para o Câmara Clara de domingo e o Eixo do Mal, ao sábado. Mais nada! Tenho muito pouco tempo livre e gosto de o ocupar com coisas que me dão verdadeiro prazer, como...espreitar o seu blogue ( e mais dois ou três) ir ao cinema e ler obessivamente!
De resto, não me move nenhum preconceito contra o programa ( pelo menos de forma consciente...); apenas desinteresse.
Se calhar ajuda o facto de ter crescido sem televisão. Nasci e cresci nos Açores e a tv só apareceu em 75, tinha eu 12 anos. Até lá sempre passei os dias e os serões a fazer outras coisas. Por isso, um dos meus filmes de culto é o "Os Dias da Radio" do Woody Allen. Revejo-me tanto naqueles serões à volta da radio...é tão nostálgico.

E concordo com opinião da SMP a propósito do seu último post. Li-o ontem à noite e imagine só: até sonhei consigo!:))) Juro!:))) Até estive para lhe falar hoje de manhã mas depois não tive ocasião (tive um dia muito cheio). E agora o sonho já se desvaneceu. Já nem me recordo bem do que tratou. Está a ver o poder da sua escrita?:) Não é qualquer um...:))

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Olá, Ana. Mas eu também não vejo televisão. Mas sou permeável ao pulsar do entorno. Faço companhia aos meus. Aos amigos que vêem. Depois desinteresso-me ou interesso-me. Gosto da estética de algumas coisas. Às vezes fico a ver outras para ver quão baixo descem. E nunca me espanto, porque tenho essa percepção da natureza humana: todos seríamos oficiais nazis, poucos seriam Schindlers, todos seríamos bons e maus, poucos seríamos excelente ou deploráveis. And so on. Quando à escrita, agradeço-lhe: sabe que já fui aconselhado a moderar o poder da minha escrita? Respondi agradecendo o elogio e dizendo que é minha intenção continuar a ser nocivo:).

ana b. disse...

Eu percebi o que quis dizer:)
É impossivel, num momento ou outro, não espreitar pelo buraco da fechadura. Se eu lhe disser que, embora nunca tenha visto o programa,
assisti a partes de gala da Passagem de Ano, acreditava?:). Pois é... Vi mesmo:))) Explico: estive de serviço nessa noite e, nos intervalos das cirurgias, lá iamos espreitando o tv na Sala de Pausa. Confesso que o que me chocou verdadeiramente foi constatar as ninharias que os concorrentes ganharam. Eles receberam em média cerca de 5000€ antes de sairem. Apesar da enorme exposição a que foram sujeitos ( voluntariamente, é certo) e do dinheiro que deram a ganhar à estação de televisão, ganhar essas michuruquices é verdadeiramente obsceno. E diz muito sobre a nossa sociedade. Acho um aproveitamento verdadeiramente obsceno das fraquezas daqueles concorrentes. Das suas aspirações. Ligitimas ou não. Voluntárias ou não. Não interessa. Achei vergonhoso e, pelo menos para mim, a tvi não ficou muito bem no retrato. Ficou bem mais abaixo que o nível dos concorrentes.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Sim, por isso começo o post como começo.:)