2012-01-25

Os pés a arrastar

Passa por mim com um semblante digno, grave, lábios pintados, olhar em frente, veio do wc e já pagou o café, vai percorrer alguns metros sozinha no passadiço junto ao mar, na íris já não lhe consigo ler a inocência como até há bem pouco tempo, apenas uma vida de sofrimento, as mãos deformadas, e agora isto, a trombose, o avc, os pés a arrastar, os passos pequenos, tão pequenos que são menos de metade dos de um bebé que começa a andar. Melhor: já não são passos, são pés a arrastar, só isso.
Quando na cara já não vemos conhecimento, tendemos a desinteressar-nos e a enterrar a pessoa viva no talhão do nosso próprio subconsciente. Mas quando é assim soa um alarme.
Aos setenta queria cá estar. E se cá estiver não queria arrastar os pés nem enfiar nos ombros o pescoço que já não suporto, mas se tiver de ser há-de ser com esta dignidade no olhar.
Terei vagar para dar leveza à expressão?
Importar-me-ei com a comoção no olhar de um jovem?

PG-M 2012

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