2012-01-31

O esquecimento do "infim" a Torga

Chatice. Era uma tradição muito minha que ia fazer 16 anos (um menos do que os que passaram desde a morte de Torga). No dia 17 de Janeiro de 1995, ao saber da morte do poeta, escrevi-o na cabeça ao regressar da faculdade por uma rua íngreme que apanhava uma vista da baixa coimbrã antes de se fundir na Corpo de Deus, onde morei no último ano de curso, em frente à Bambi das malhas, num quarto andar sem elevador de onde se via o basófias. Estava triste por razões pessoais: era uma excitação quando apanhava o trólei 3 para ir ao quarto antigo antes do jantar - era o mesmo que o Dr Adolfo apanhava para vir do consultório que tinha na baixa. Para mim, não era normal nem podia ser verdade que o Torga do Miúra era de carne e osso em vez de apenas mito. Mas ele ali estava, quase todos os dias, no trólei 3. Podendo, sentava-me em frente a ele e só uma ideia me ocupava o pensamento durante os dez minutos da viagem: "fala com ele, fala com ele, fala com ele, fala com ele". Nunca falei. Depois ele deixou de aparecer. Depois morreu. Se me esticasse no parapeito do meu quarto da Dias da Silva, conseguia ver o quintal da casa dele. Mas deixei de morar nos Olivais em 1993 - e deixei de apanhar o trólei 3. Não assisti ao desaparecimento gradual do Torga. No dia em que morreu, escrevi este soneto e comecei a publicá-lo na internet todos os 17 de Janeiro, desde 1996, quando a internet ainda era uma coisa rara, estranha e distante para a maioria das pessoas. Falhei este ano, pela primeira vez. Emendo a falha com esta pequena história, que também conto pela primeira vez.

O INFIM


Foi um dia azul, cinzento e vermelho,
que o Belo topou, descendo em desdém,
às curvas já cem de um caminho velho,
um homem que leu pensando ninguém;


Lançou-lhe uma luz sobre o casario,
e o homem parou, por sobre um sorriso,
cheirando a visão, dos lados do rio;
“Poemas remando os barcos do siso,


O guarda desguarda a ausência do posto,
o monte está nu do andar do pastor,
e até o tal Sol tem sombras no rosto;”


E o sino falou calado o clamor:
“Que um cipreste seu de seiva nos crive.”
Nem Torga morreu, nem a morte o vive. 


Pedro Guilherme-Moreira 
17 de Janeiro de 1995 


foto de Daniel Tiago, retirada daqui

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