2012-01-23

Carnificina de salão

A primeira mensagem vai para quem gosta de ver filmes que prendam à cadeira: este é um.
A segunda mensagem vai para quem gosta de ter um olhar crítico sobre si próprio: o filme é um espelho da classe média ocidental.
A terceira mensagem para espectadores normais que não gostam de filmes "malucos" a alternativos: o que este filme tem de notável é usar situações banais, que experimentamos todos os dias, para nos mostrar como estamos sempre perto de quebrar e de mudar.
O filme é visto com um sorriso permanente nos lábios porque está bem escrito e tem grandes actores que estão bem dirigidos por Polansky. São pouco mais de sententa minutos que parecem quinze. Apetece mais, muito mais. Apetece sair por aí fora. De qualquer forma, a aspiração ao simbolismo, tão criticada em qualquer arte mas normalmente ambiciosa e difícil de atingir - frequentemente procurada por Polansky -, faz com que neste filme tenhamos mais paradigmas do que realismo estrito.
Está também assente que a Kate Winslet é para casar. A Jodie Foster tem, no meu entender, o melhor papel de muitos anos, assim como o John C. Reilly. O Christopher Waltz chegou agora às bocas do mundo, já ganhou o óscar e mais uma quantidade de prémios e merece mais - é grande e vai ficar como uma das referências da sua geração de actores, o que é notável para um austríaco, o terceiro mais famoso desde Hitler e Schwarzenegger. O filme, que ainda não foi mencionado, mas levou em português o excelente título de "O Deus da carnificina" (o título da peça original de Yasmina Reza, e o bom gosto de o traduzir fielmente) expõe-nos de forma perturbante (mas leve e cómica - somos nós que trazemos o filme no pensamento e o aprofundamos, se quisermos) a comédia e o drama dos micro-nadas dos nossos dias, dos nossos relacionamentos, do nosso papel como pais e maridos e mulheres, dos nosso vícios e dos nossos tiques, dos nossos limites. Imperdível, claro, ou não se escreveria sobre ele.

PG-M 2012

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