2011-05-21

Uma mulher perfeita

Finalmente, Ros. Finalmente, finalmente, Rosamund Pike, que, parecendo nome bafiento de personagem dos clássicos, foi dado pelo baptismo a uma diva que, finalmente (é o 4º finalmente; este é o 5º:), é filmada ao centro. Quem se lembrou disto foi o realizador Richard Lewis, que nos dá um detonador de corações em "Barney's Version" (título português: "A minha versão do amor" - porque "A versão de Barney" seria muito difícil para o público de cinema, que é estúpido, certo?). Não li o argumento, mas dificilmente o mérito deste brilho de Ros veio do argumentista: apetece-me agradecer ao director de fotografia e ao realizador, que a soube exaltar, como ela há muito merecia. Com 1,75m e dona de um porte majestoso, além de uma beleza sem data (ao contrário do nome:), já alguém tinha reparado nela em 2005, premiando-a como melhor estreia no cinema pelo seu papel de Miranda Frost em "007 - Morre noutro dia", mas nem mesmo o ex-noivo, o realizador Joe Wright, que a conheceu quando a dirigiu em "Orgulho e Preconceito", e depois se declarou à menina no Lago de Como, Itália (que, coincidência ou não, cumpre um papel simbólico neste filme), soube trazê-la para onde ela merecia.
Agora sim.
Do cenário onde é posta deliberadamente a brilhar (o segundo casamento de Barney) ao comboio, ao restaurante habitual, a Nova Iorque, Ros dá cabo de nós. Juntar a isto mais um grande papel de Paul Giamatti (Barney) e um filme arrumado para nos arrebatar (e que pecado é esse?) quer dizer aquilo que eu entendo por grande cinema. Não no sentido de obra-prima, mas no sentido das melhores horas que se pode passar sentado numa cadeira, às escuras, perante um ecrã gigante - e a banda sonora ajuda.
Mas tenho de começar como acabei: é fundamental cultivar o corpo cinematográfico de Rosamund Pike. A mulher perfeita chega-nos em 2011 e nós gostamos que ela nos iluda intensamente, porque isso é cinema.
Finalmente, Ros.
PG-M 2011

2011-05-15

(para que a felicidade não canse)

Sábado que vem vou vender a alma
na vandoma
e Domingo vou dizer-te

Amanhã temos de ir
às compras, já não há fel
em casa
e ao brincar assim com coisas sérias na solução aquosa do teu olhar
sigo rua fora com o sorriso enfiado na gola do teu casaco
a pensar em que café deixamos que os corpos se abandonem
a uma torrada
e tu pedes um pingo e eu explico na vidraça
a fórmula matemática do amor, e lembro
como está frio lá fora
e minto outra vez:
(para que a felicidade não canse)

Sábado que vem vou vender a alma
na vandoma

PG-M 2011

2011-05-02

Em Maio

Em Maio, amo-te nua
sem memória do inverno,
amo-te o corpo na rua
amo-te o rasgo de inferno
e nem sol te contém,
passas da sombra, da luz,
do tempero e do desdém,
da vénia que te depus,

e vens-te.
Em Maio,

amo-te no vestíbulo
de todos os lugares do mundo,
assim, rotundo,
imundo,
nos pórticos de palácios
nas antecâmaras do mar
nas dunas
no quarto
no tecto
nos espasmos do capim
no não no sim
nas montanhas e planaltos
nos saltos altos
nas desculpas nos pretextos
entradas de dicionário
não somos corpos
bissextos
amantes de breviário
vais fazer-me no ginásio
vou comer-te no granito
do tampo que te tiver
em refeições imprecadas na incoerência da nossa
cozinha.
Venha quem vier

Em Maio és minha

PG-M 2011

fonte da foto

2011-05-01

A solidão dos primos e a excelência sem números

Vocês não sei, mas eu, ao cinema, vou buscar emoção, actuações, beleza formal, luz, corpos, olhares, histórias. Ao ler uma crítica de números (duas estrelas) ao filme "A solidão dos números primos", reparo que o excelso crítico diz que é tudo bom, magnânimo, sublime, mas que, se não fosse a grande competência do realizador, o filme nada valia. Portanto, o filme não seria bom se não fosse, mas como é bom por causa do realizador e dos actores e dos silêncios e dos ambientes, como é bom por causa de tudo, se não fosse isso não era. Duas estrelinhas. Eu até tinha lido o livro, mas não vamos confundir as coisas: verdade, verdadinha, é que, fora o protagonista, Mattia, que é mais frágil que o do livro, a intensidade e a beleza formal estão cá na totalidade. E os actores? Se eu vos disser que não há um que não esteja muito bom, não minto, mas depois há o Luca Marinelli - excelente, para o papel que lhe foi dado - e, cuidado com ela, que grande papel, a ruiva italiana que não é nada bonita e é tão bonita, Alba Rohrwacher, que se tornou anorética (e Luca, que era quase isto, ficou gordo) para cenas levadas da breca, totalmente viscerais. Gostei muito? Pois gostei - mais uma vez o casting conseguiu fazer milagres e dar-nos miúdas feias e lindas, tão claras quanto perturbadas, tão doces quanto assustadoras, fortes, tão bem filmadas por Saverio Costanzo, um realizador talentoso que deve andar muito aborrecido por não ter sido percebido: afinal, o único prémio que este filme recebeu foi o de melhor actriz, para, claro, Alba, no festival de cinema italiano de Bastia. E quase todas as críticas (eu li cerca de 30 de diversos países do mundo) dizem que ele é um fantástico realizador que filma magnificamente, mas depois tiram poucas estrelas do bolso (embora haja alguns 4 e 5, por mais redutor que estas classificações sejam). Gostei muito, pois gostei, mas eu, caramba, sou só um tipo que vai ao cinema ver setenta filmes por ano há vinte e seis. Nunca ganhei um tostão como profissional do sector. O que sei eu de cinema?
PG-M 2011