2011-04-30

Dos objectos


(...) Perante o corpo nu de uma mulher, mais do que do seu olhar, não na penumbra do que ela quer esconder mas na luz coada que incide sobre a celulite das suas nádegas e das suas pernas, que é como quem diz sobre o que em si é autêntico, há nos homens íntegros uma sacralização.
Não é possível ser filho da puta porque sim, porque se decidiu que se tinha direito, como os outros, de entrar por elas adentro sem deixar que sejam elas a entrar em nós, ignorar a comunhão final, o abraço que procuram, e quando não procuram somos nós, os rectos, que deixamos de querer saber, se é mera fêmea de copulação e nos deixa depois de se satisfazer há uma indignação vaza que nos atinge, uma maré incompleta, como se fôssemos nós as putas. (...)
PG-M 2010

2011-04-29

Casamento (ir)real

Catherine era muito mais gira e jeitosa nos tempos de universidade. Emagreceu até ao ponto Barbie e agora é perfeita: é que a perfeição, em televisão, tem de ser sempre xis menos sete (ou é catorze?) quilos, se é para fotografia tem de haver linhas fortes, nem que sejam a fealdade e os ossos sem carne, se é para passar roupas o corpo tem de virar cabide. Catherine ainda tem de ser mais do que isso: tem de ser princesa, e ainda por cima uma princesa inglesa, e por isso tem de ser ela menos sete dela. Se observarem atentamente os gestos da realeza, reparam na sabedoria da contenção. Os gestos são redondos e incompletos - deixam sempre o final ao povo. O sorriso é pela metade, ou, se for aberto, é breve. Os olhares que seguiram a noiva foram todos contidos e limitados no tempo: não mais de dez segundos a fixá-la, e a cara voltava-se para a frente. Isto é pura arte. Arte que emociona (e muitos não chegam a perceber porque é que se emocionam - não é por quererem estar lá, garanto). A maior arte é assim, incompleta, contida, irreal e visceral como a essência (porque o âmago não se desenha nem se explica). Se defendi uma ampla cobertura da cerimónia, essa era a razão. O brilho de uma arte maior - e nada frívola, antes violenta, contundente - dado a quem passa vidas sem o receber. Tirem-nos as monarquias, se quiserem, mas não nos tirem os príncipes e as princesas (por mais que os príncipes das Repúblicas percam esse carácter meticuloso da arte de se moldar à sabedoria de séculos - sabedoria que nasceu sempre no povo - também chamado de Deus -, não nos reis).
E se os invejam, estejam mais atentos: observem atentamente os corpos dos reis e das rainhas, dos príncipes e das princesas, reparem no pendor do rosto, na abstracção da expressão, e de como há muito eles deixaram de ser humanos. Estavam dispostos a abdicar de vocês próprios?

PG-M 2011

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2011-04-28

A manhã do mundo tem blogue autónomo

Ainda não fora aqui dada a notícia e a ligação, mas os conteúdos que se refiram ao meu livro "A manhã do mundo" (D.Quixote) só excepcionalmente aparecerão neste blogue. Quem quiser seguir as notícias (novidades, datas de lançamento, posts, clipping) e ver vídeos sobre o livro (booktrailers, entrevistas, etc) deve fazer o favor de seguir o blogue:
http://amanhadomundo.blogspot.com
(adicionando-o aos favoritos, subscrevendo por email ou rss). Obrigado a todos. PG-M 2011

2011-04-27

Na literatura, a alegria

Na minha literatura, a alegria reside no outro e tem em mim, apenas, o quarto arrendado dos fundos.
Vai pelo que não sou eu, pela sua expectativa, pelo apetite de ler, pelo prazer que tem numa frase, com corolário na comoção quando lhe é dito ou escrito.
Na solidão do acto criador está oculta, submersa, rege apenas no ponto final, às vezes nem isso, e é curto, sempre muito curto, o prazer.
A frase é uma operação. A página um problema. O livro uma cadeira de álgebra.
A mão a fórmula.
Se perco a mão, perco o livro.
Mas mesmo que o encontre, nenhuma alegria sem o senhorio que me arrenda o quarto dos fundos.
Nenhuma alegria sem um só leitor que seja.
PG-M 2011
fonte da foto - Autora: Luz

2011-04-26

Angels flying too close to the ground

Já sabem que escrevo numa mesa a dar para o mar, embora, por sinal, seja a mesa menos cobiçada deste lugar. A verdade é que o mar está aqui em baixo, aos pés, tempesteie ou estie. Hoje está sol, e entre mim e o mar sentaram-se cerca de uma dúzia de pessoas que dizem diminuídas ou com problemas mentais. Viemos todos ao mesmo tempo: eles saíram de uma carrinha e eu do meu carro. Eu vim à frente e eles atrás, com os seus monitores. Estiveram ali na esplanada cerca de uma hora. Nem por uma vez olharam para o mar ou para a praia. A maioria esteve imóvel, calada, a olhar para um ponto fixo afastado apenas alguns centímetros da cara. Metade deles balanceava o corpo para a frente e para trás, um batia palmas e ria-se de quinze em quinze minutos (precisamente), outro começou calado e sem sinais de nada que lhe diminuísse o entendimento, sorrindo primeiro, rindo-se depois, apontando o dedo aos que se balanceavam mais vigorosamente. Uma rapariga estava mais agitada, e a monitora falou-lhe com dureza: "Olha para o mar! Olha para o mar!" Mas eles nunca olharam para o mar. Conheço este grupo de outros encontros (já aqui relatei a forma como um deles, o Pedrinho, passando por mim no passadiço que nos permite passear praias fora, me cumprimentou e emocionou), e sei que a ideia de mar, de praia e até de liberdade, é importante para eles. Como são as pessoas. Eles não olham nem para o mar nem para as pessoas, mas sabem que estão lá e acalmam. A rapariga que estava mais agitada, a única que nesta hora se levantou para vir, acompanhada, à casa de banho, também acalmou, mas eu não. Por trás da expressão que traduz apenas um corpo consumido pela impotência, era bonita, tinha uns olhos grandes, e, no meio daquele grupo aparentemente inerte, era a mais inconformada. Sempre que tenho oportunidade de me deter perante esta pessoas superiores (e não esqueço estes monitores que não os deixam encerrados entre quatro paredes, e a sua infinita paciência e carinho), percebo, sem me ser explicado, o melhor de nós. Tal como as crianças - e alguns animais - são para aqueles, como nós, a quem nada é perdoado, um modelo de humildade e pureza primordial. Inspiram sempre o melhor de mim e nenhuma frase o traduz melhor do que esta: "Angels flying too close to the ground". Willie Nelson, o palco é teu:


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2011-04-24

Mia Eyre

Não é novidade nenhuma: para mim, metade do cinema são as mulheres. Aguento bem obras-primas como "Cães Danados", em que basicamente só vemos homens de barba rija a rebentarem outros homens de barba rija, mas tenho de tomar, logo de seguida, uma dose de mito feminino, feito ou por fazer. Ou meio-feito, como Mia Wasikowska, que, apesar do nome polaco, é australiana, toda australiana, de Camberra 1989. Mia é um acerto de casting e actua com o corpo todo, a cara toda, e também com o que não tem. A tal contenção dos grandes, que nela se adivinha. Portanto, Mia é uma Jane Eyre convincente, em breves momentos arrebatadora. O que vou dizer sobre a versão 2011 de "Jane Eyre", muito bem tratada pelo realizador Cary Fukunaga , é muito simples: até que enfim que os americanos voltam a apostar alguma dinheiro em verdadeiro cinema - apesar da liderança da produção pela BBC Films, está lá o dinheiro da NBC, através da Focus Features, e da Ruby Films (companhia "independente" inglesa). O resto é argumento, bom argumento de Moira Buffini - é que a história, sendo clássica, não resistiria ao tempo tal como estava escrita por uma das manas Brontë, neste caso a Charlotte (que o publicou sob o pseudónimo de Currer Bell). Aliás, desafio-vos a pegar no livro depois de verem filme, e conferir se aqueles diálogos resistiam num filme que, apesar de retratar o século XIX, é do século XXI. As analepses, prolepses e diálogos de Moira Buffini e, claro, a excelência de Mia Wasikowska (que só não vai aos óscares, se a Academia se perder do filme e o deixar no "remoto" inverno de 2011 - saiu em 11 de Março nos EUA - mas "O silêncio dos inocentes" ainda saiu mais cedo, Janeiro de 1991, e arrebatou as categorias principais em 1992) são o segredo de um bom filme. A não perder, claro.

2011-04-20

A capa d'"A manhã do mundo" - que passa a ser vossa

Emoção. Hoje mesmo, ao vê-la, um bombeiro que resgatou corpos dos escombros me disse que estava "bela e triste". E que a emoção lhe tinha feito bem. É o mais importante, é a essência deste livro: as pessoas. Emoção fortíssima foi também a que eu senti - foi a mais intensa de todo o processo editorial deste meu livro, que sai com a chancela da D. Quixote a 16 de Maio - quando a Maria do Rosário Pedreira me enviou esta obra de arte do Rui Garrido - e eu, que tinha ideias e mais ideias, calei-me. Emocionado, claro. Agora é vossa, para desfrutar e partilhar, até que o conteúdo chegue:).

2011-04-15

FABVLA VRBIS

Uma descoberta maravilhosa, em Alfama, ali em frente às escadinhas do Aljube, no gaveto formado pela Rua de Augusto Rosa e do Barão, onde quero voltar para ficar horas a conversar com o João Pimentel - de lá, em breves minutos, além de trazer, finalmente, o "Lisboa Mítica e Literária", de Ángel Crespo (Livros Horizonte), trouxe também a certeza de que vou conseguir reconstituir a Lisboa do meu bisavô. Como eu disse ao João, esta é das livrarias onde se fica perante as estantes livro-sim, livro-sim. E, claro, agradeci-lhe a coragem.

2011-04-14

Vinguemo-nos, então

Começa a ser recorrente escrever que é escassa a crítica cinematográfica dirigida a seres humanos: é algo injusto que o cidadão que paga um bilhete de cinema não tenha quem lhe diga, com clareza e simplicidade, que filmes são mesmo para ver, e as estrelas perdem o seu efeito prático quando, lado a lado, críticos experimentados dão o mínimo e o máximo, como se isso fosse possível, e nenhum grau de objectividade tivesse cabimento. Nestes casos, é quase certo que quem se enganou foi o crítico que deu o mínimo, pois se um colega experimentado lhe achou tamanhas virtudes para lhe dar o máximo, é o senhor do mínimo que assume a proporção que a nota lhe dá. Ganhar um óscar também pode ser um estigma para aqueles que não pretendem ser reduzidos a uma máquina de promoção eficaz - e o vencedor do óscar do melhor filme estrangeiro é sempre o mais bem promovido. Hævnen, o título do filme dinamarquês que ganhou o óscar do melhor estrangeiro em 2011, quer dizer "vingança". É bom reencontrar a excelente actriz Trine Dyrholm, que já tinha deslumbrado em "Troubled Waters" - que também teve direito a crítica neste blogue - , é bom ficar pendurado pelos cueiros num filme que nunca nos deixa, verdadeiramente, descansar, do primeiro ao último segundo. Susanne Bier transmite-nos, em planos bem estudados e com um director de fotografia competentíssimo, a vertigem da natureza humana. Oferece-nos também um travo de literatura nórdica, que nem sempre é agradável, mas quase sempre é brilhante.
Não tem maus actores, bem pelo contrário, aborda os problemas de sempre, mas de outra perspectiva: as disfuncionalidades num contexto de educação e sucesso pessoal. A realização de Susanne transforma a aparente banalidade da abordagem frívola de um tema em algo de sórdido, que nos faz pensar sempre no pior. A bondade de um ser humano exemplar anda lado a lado com o seu lado negro. E tem Trine, pelo menos Trine, merece as nossas duas horas, uma tarde, uma noite diferente. O filme é muito bom, mas, claro, pode fazê-lo. Pode vingar-se. Pode matar.


2011-04-04

Em Abril

Em Abril, foge-me a mão
para a mágoa, e como a água
que esperas, amo-te
não por escrito,
estou proscrito
e tu quimera,
quem me dera


o teu silêncio e tudo
que no teu peito eclode.


Em Abril, do nosso amor,
sobra apenas uma ode
dita de cor

Pedro Guilherme-Moreira 2011
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A minha gente (bem regadinha e iluminada)

O idiota que mandou desligar a luz da Luz e regar os novos campeões não deve ter antecipado que ia ter a sua própria gente contra si. Nos tempos que correm, velar, amordaçar, esconder, agredir, impedir festa ou riso não é popular nem aconselhável. Vivo no Porto, e é o Porto, acima de tudo, não especificamente o FC Porto, que me importa. E há tanta gente que confunde uma (grande) coisa com a outra. Como tripeiro, convivi toda a vida com centenas de benfiquistas, amigos de farras e futebóis, férias e trabalho, e não deixo de estar ao lado deles por causa de um jogo de futebol. Sorrisos amarelos do lado derrotado é o máximo que se vê. Mas mesmo esses são raros. O ano passado assisti com gosto, da minha janela, aos festejos dos benfiquistas. Depois de ser certo que o Porto não renovava o penta, passada a breve desilusão, eu - e não só eu - não consigo estar triste perante a alegria alheia. Isso seria ser pequenino, e eu sou um matulão:). Quem já me lê há uns anos, sabe que, praticamente, só escrevo sobre bola quando o Porto perde, e principalmente quando está em "crise", ou seja, quando os falsos adeptos, os cobardolas, fogem e vão para a porta dos centros de estágio agredir atletas, dirigentes e treinadores do próprio clube. O desportivismo constrói-se na derrota e exerce-se na vitória. Em 40 anos, não me lembro de felicitações tão rápidas e francas dos amigos benfiquistas. Aliás, posso estar esquecido, mas não é hábito dos seis milhões felicitarem outros. Razão pela qual não tenho dúvidas de que, tanto o apagão como o regadão, fizeram pelo desportivismo o contrário do que pretendiam. Porque a minha gente não é a que atira pedras e destrói estações de serviço e conspurca o nome do clube (e da cidade) que diz amar agredindo pessoas que vestem outras camisolas, muito menos uma cambada de arruaceiros empenhada em dar cabo do desporto e do sossego dos outros. A minha gente tem sotaque largo, é de todos os clubes, e tem apenas a idiosincrasia de viver numa cidade em que a maioria dos adeptos é do FC Porto. E o Porto não sobrevive sem essa boa gente, mas vive bem sem arruaceiros que, obviamente, já fizeram disparates como o do apagão, e muito pior. A minha gente tem vida dura, mas hoje acordou anestesiada e desfraldou a bandeirinha nas ombreiras e enrolou o cachecol azul e branco no pescoço e bebeu um copito de três com o amigo benfiquista que o esperava com um sorriso malandro, a ver qual era a pior tirada. Para o ano somos nós, diz ele. Claro que são. Para o ano ou daqui a dez, que importa? O que importa é que estejamos aqui todos, a beber copitos de três, amanhã.

PG-M 2011, ex-atleta, filho de ex-atleta, irmão de outro ex-atleta e pai de sócio do FCP

2011-04-02

Palavras penduradas e autismo

Outro dia uma querida amiga, e respeitada cineasta, queixava-se da indelicadeza dos mails e mensagens profissionais não respondidos. Falava, que fique claro, dos trocados entre pessoas que se conhecem previamente e já contactam profissionalmente. Não dos pobres diabos que se consideram a si próprios muito importantes, sem terem noção de que são o contrário. E não se incluem aqui os chamados "postais" locais, os voluntarioso, mas sim aqueles que parecem falar como se só eles existissem. E há bem pior, no mesmo contexto, dentro e fora do facebook: o desprezo. Pessoas que ignoram outras quando não conseguem perceber em que é que as beneficia não o fazerem, e se tornam prestáveis ou, pior, subservientes, quando se apercebem que o que ali está lhes interessa. Como odeiam a felicidade ou as boas notícias em que estejam envolvidos terceiros. Como agem como se elas próprias fossem vedetas que só se dão com outras vedetas. Como combinam encontros privados em público, por escrito, à vista de todos. Pessoas autistas, pouco ou nada humildes, que, as mais das vezes, controlam o mundo em que vivemos.
PG-M 2011

2011-04-01

Gloriosa Rachel

A crítica a este filme faz-se depressinha: Rachel McAdams para o menino e para a menina. Para quem gosta e para quem não gosta. Eu gostava. Agora ainda gosto mais. Não que ela tenha alguma coisa de "girl next door". Qual quê? É mais "cover girl", mesmo, mas, seja ou não seja, não é por aí. Além  de, ao contrário de outra vedetas que se inserem no mesmo patamar de "casting", não ter aqueles irritantes tiques que fazem desesperar quem vai à procura de cinema, e não de palhaços, tem toda uma panóplia de recursos que ficam bem à vista neste filme, e torna-se na namorada, na amiga, na profissional, na filha - só faltava ser mãe. E depois é pungente ver como se safam bem o grande Harrison Ford, que está com visíveis limitações motoras mas se defende muito bem, e a normalmente irritante Diane Keaton, que, não só cumpre, como supera as expectativas. Sendo um "feel good movie" (e quem mal tem isso? Bem precisamos deles...), não é desmiolado, permite conforto aos profissionais que vivem aquela vida e alguma compreensão e reflexão a quem está de fora e que, como eu, critica sem piedade as opções pelo nivelamento por baixo de informação e entretenimento. O argumento é muito simples, mas está escrito e representado com competência (brilhantismo, no caso de Rachel), e contém algumas sequências de ir às lágrimas - estejam atentos ao momento em que a produtora muda de estratégia para aumentar as audiências, que na sala foi quase (e justamente) de histeria. Eu não escrevo muito sobre cinema, e só o faço quando os filmes me compelem a fazê-lo: este compeliu, e é obrigatório para quem quer passar um bom bocado. E termina com uma montagem brilhante, algo inesperada e bem acima da qualidade média do filme: estejam atentos às cenas finais, em que se vê Rachel a correr, em câmara lenta, pelas ruas de Nova Iorque. Uma maravilha de realização, montagem e fotografia (o que inclui a iluminação). Way to go.



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Humildemente público

Sim. Há um livro meu que vai ser publicado no final de Maio na mais prestigiada editora portuguesa: a D.Quixote. E com isso se esgota a minha vaidade, porque sim, estou vaidoso - por mim e por todos os que me seguem e acarinham há tantos anos.
Acabou ontem, pois, a minha história íntima com a literatura, e começou a minha história pública.
Não desse eu tanta importância ao recato e à humildade, nada diria.
Mas não tenho jeito para me fingir de importante e assobiar para o lado, quando efectivamente sou um zé ninguém e farei tudo por continuar a ser. E para um zé ninguém, o que conta são as pequenas coisas. Pequenas e simples. E as pessoas, todas e cada uma. E como tenho dois grandes defeitos, que são duas buscas, a busca pela bondade e a busca pela autenticidade, a tal que substitui a verdade crua, que é seguramente egoísta, não sei esconder a emoção. E agradeço os mimos. Mesmo que sejam ou venham a ser parte de uma estratégia comercial de promoção do meu nome para maximização das vendas, para que eu e a minha editora possamos comer e dar de comer a quem depende de nós. E para que possamos continuar a fazer o que queremos: eu escrever, ela editar.
Por isso, este é um momento singular, aquele em que se vê o meu nome num pedacinho de um blogue de uma editora que, dizem (não eu nem ela - e nossa história comum, que um dia merecerá ser contada, é bem mais bonita do que sentenças insindicáveis), é a melhor editora portuguesa da actualidade: Maria do Rosário Pedreira. É a primeira vez que um terceiro fala de mim como indo editar (-me) um livro. Esta menção deixa-me orgulhoso - dou-lhe valor, sim, muito.
Mais tarde, aparecerá o tema, o nome, a (belíssima) capa do livro, poderão encher-se páginas (de blogues, de jornais, de revistas, não importa), mas nenhum é tão singular e simples como este momento, o inaugural, o fundador.
Por baixo, está tudo.
O puto que aos sete anos se atreveu a fazer da professora primária a protagonista de uma fábula e nunca mais parou. Passaram 35 anos. Aos 20, este que vos escreve teve uma decisão estúpida para uma sociedade que valoriza, acima de tudo, a aparência e a visibilidade no meio, contada em antiguidade: esperar. Esperar pelos 40 para maturar tudo: a pessoa que era, a escrita, o que sabia, e para prosseguir uma carreira apaixonante como a advocacia.
Só a consciência clara da falta de seriedade em todas as actividades económicas - e do consecutivo assassínio de carácter dos lúcidos - e da rendição aos grande grupos económicos de quase todos os sectores da economia e da cultura me fez pensar que não valia a pena o esforço total do idealismo.
Passei a acarinhar a ideia de mostrar o que fazia, mostrar o que escrevia, de fabricar produtos para os comunicar às pessoas e sonhar não depender de um actividade que, exercida honestamente, leva qualquer advogado à falência - principalmente nos últimos anos.
Em 2007 fechei o meu site de informação jurídica, portolegal.com, que, apesar de construído e gerido sozinho (eu era tudo lá), foi um dos pioneiros da informação jurídica e nunca serviu para promoção pessoal ou profissional. Quando o fechei, por haver mais e melhor (quando o portolegal.com começou não havia nada), o portolegal.com  ainda conseguia ser dos primeiros a actualizar a informação e, certamente, continuava a ser o mais simples de todos. Teve mais de meio milhão de visitas (não "hits" ou "page views", visitas mesmo) no ano do fecho. Como nunca reclamei o mérito e também nunca mudei o discurso, e disse sempre tudo o que me dava na real gana ("A insolência é o meu anjo-da-guarda", dizia Einstein, e também é o meu, com os devidos respeito e distância:), nem aí fui público, até porque nunca aceitei fazer a figura do jurista do bitaite nas televisões.

Em 2007, fechei o site porque já não aguentava não escrever todos os dias, sentia mesmo urgência em parar com a poesia, que é instintiva e nunca me abandonou, e trabalhar a prosa. Em quatro anos escrevi cerca de 1.500 páginas de romances e outras tantas de textos dispersos. Ou seja, profissionalizei-me, embora não ganhe um tostão com a actividade. Provavelmente, não ganharei um tostão tão cedo e, quando ganhar, serão meia-dúzia de tostões, mas podem estar certos de que farei tudo para contrariar o marasmo em que se encontra o país e, particularmente, a literatura. Não aceito o discurso miserabilista, até porque sinto que não se faz o suficiente de parte a parte. Os "actores" não se ouvem uns aos outros e, embora haja muito boa gente no meio, há também, sim senhor, uma grande tendência para o autismo em todos os sectores. E não quero perder os meus defeitos, as tais buscas pela bondade e pela autenticidade, nem que tenha de pagar um preço por isso.

O texto da minha editora são as minhas pancadas de moliére.
Neste momento me recolho em humildade gratidão, e agradeço a todos os que lêem.
Podem esperar que não me cale nos próximos tempos.
E algum dia me calei?

Pedro Guilherme-Moreira 2011
link do texto:
http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/58339.html

PS: quem for amiguinho, tranca já duas datas de lançamento. 2 de Junho em Lisboa, fim da tarde, e 10 de Julho no Porto, meio da tarde. Depois são relevados os locais.