2011-01-28

Noquinhas

"(...) - São dois miuditos à procura da estreia. Deixem-nos subir. - disse ele às putas. Uma rara felicidade acendeu nas caras de algumas delas, e a Noquinhas acabou por consentir.
- Não gosto de visitas sem aviso prévio. - mas deixou.
Vicente e Raspa começaram a subida da ínvia escadaria, comentando aquele que
- Estes lanços enviesados lembram-me sempre o gajo do Processo, do Kafka, a subir as escadas do tribunal.,
um comentário perfeitamente despropositado perante um Raspa que estava mais para lá do que para cá, imaginando o que diríamos nós se o víssemos ali, agora, com o rabinho entre as pernas e uma irreprimível vontade de fugir para casa, queria tão intensamente o colinho da mãe que as pernas tremiam entre vontade, medo e determinação, não, nada o demoveria, nada, a alternativa era assustadora, continuar virgem com dores lancinantes no pulso e preocupado por poder dar em paneleiro, coisa muito mal aceite à época, mesmo entre os paneleiros.
Quando chegaram ao topo daquela montanha e afastaram a cortina de veludo verde encardido, o cenário que se abriu não estava assim tão afastado do que tinham sonhado, com ligeiras variantes na (falta de) beleza e juventude das raparigas, e numa ou noutra tábua fora do lugar. Nunca lhes tinha ocorrido que um soalho bem conservado poderia ser fundamental na sua vida sexual. Todas estavam a mascar pastilha elástica, três ofereciam sorrisos de compreensão e irreprimível expectativa, e as duas mais aceitáveis estavam encostadas à parede com ar de desdém. Um cenário de putas era sempre assim nos anos oitenta. (...)"
Pedro Guilherme-Moreira

Old friends old tree

"(...) Projectava-me no futuro e pensava o que seria romper com todos aqueles amigos que corriam em volta da árvore de tronco largo que dominava o corredor estreito do recreio na parte de trás da escola. Sabia que perderia a maioria para sempre. Pensei nisso com mais intensidade nesse último dia de escola primária, mas foi impossível conter tanta emoção dentro de mim. Não consegui gerir simultaneamente a perda de vinte e tal amigos. Antes de arrancarmos para o passeio da praia, aquele onde a minha mão encontrou a de Ana Bárbara, deixei-me ficar no muro de meação, de costas para a casa do professor (o único docente masculino ao tempo, vizinho da escola), um lugar para onde nunca ia. Fui para lá porque queria estar fora do cenário que conhecia e do espaço que dominava. Queria ter uma noção clara do que ia acontecer. (...)"
Pedro Guilherme-Moreira

Old friends

"(...) Sucedia-me frequentemente nos primeiros dias das férias grandes. Uma estranha inquietude tomava conta de mim, e eu atribuía-a ao vento leste, mas quando o Verão ficava órfão desse sopro, não conseguia perceber.
Um dia, postado na avenida marginal à espera de atravessar, olhei para Sul e lembrei-me que a casa dela ficava nessa direcção, porque era sempre para lá que seguia a camioneta que ela apanhava ali mesmo, depois de me deixar na minha rua, a última transversal da alameda antes da praia. Lembrei-me da casa, da camioneta, e depois lembrei-me inevitavelmente dela, e soube nesse momento que era ela que me fazia falta, que era ela a tal inquietude, o vento leste. Se a minha mão fora de forma fugaz o contraponto da mão da Ana Bárbara, a Carla era o contraponto de toda a minha alma. É isso que os amigos são. (...)"
Pedro Guilherme-Moreira 2010

Piquenique

Quando descarnei o capim
- e te vi -,
já tinhas acabado a cigarrilha
e franqueavas erva
sobre a pele
morena, e o capim
cerrou sobre os nossos corpos
e o ventre
velou, e eu consumi-te
assim.

Nua, plana, tóxica

Pedro Guilherme-Moreira 2011

2011-01-27

O lado assassino da fotografia

Ainda a adolescente:
"(...) A fotografia formata a mente e assassina as memórias. Assassina a verdade. Nos tempos que correm, com fotografia em todo o lado, a artificialidade transfere-se para dentro do real.
Senão vejam:
Do passado do qual não há fotografias permanecem memórias únicas e múltiplas. Cada pessoa acaba por reter apenas certos elementos, ao ponto de haver uma dinâmica quando dois velhos amigos se juntam e partilham o lado da memória que ficou em cada um, preenchendo o esquecimento do outro. Mas se há fotografias desses factos, elas tendem a apagar a verdade de cada um e a uniformizar todas as memórias naquilo que ficou registado. Ora, a fotografia é sempre parcial e selectiva. Na cor e no enquadramento. Ocupa e formata as memórias, contribuindo para que nos esqueçamos dos factos e das pessoas realmente importantes para nós. Daqui a uns anos, vou ter a amarga experiência de encontrar melhores amigos que não se lembram de mim. Mas lembram-se de um rival que ficou eternizado numa fotografia. (...)"

80s and 10s

Ainda a nossa adolescente a reflectir:
"(...) Aos dezasseis anos, como se dizia, a adolescência entra no tempo fugitivo. Ou seja, há coisas que, ou são feitas nesta idade, ou se perdem para sempre. Claro que a possibilidade de viajar no tempo parece resolver este aparente drama, mas verão que não é bem assim. Os passeios escolares sempre foram uma oportunidade única de banalizar a memória. Sim, de a solidificar, mas também de a banalizar. A oportunidade de ter as pessoas todas presas dentro de um autocarro é inestimável, sendo certo que cairá em desuso o que era vulgar no meu tempo: a ida para a escola em transportes colectivos. Por isso, cultivar pulsões e mistérios deixará de ser possível num mundo que acelera exponencialmente e onde nada pára. Perder-se-á o olhar. Estaremos quase sempre de cabeça enfiada num telemóvel ou numa consola. Haverá sempre alguma coisa para ocupar o tempo. As secas estarão em crise. Hoje, a paisagem já é irrelevante na rotina da maioria dos adolescentes. Há alturas em que os meus pais me levam a passear a pé pelas ruas da minha vila e eu me vejo a descobrir coisas em que nunca tinha reparado, embora já as tivesse visto. Mesmo nos percursos que habitualmente faço para ir para a escola. O caminho da escola teve sempre uma enorme importância por causa das referências geográficas e afectivas em que assenta o nosso sistema de valores. Hoje é ignorado. (...)"
Pedro Guilherme-Moreira

2011-01-25

Gnoseologia adolescente

A mesma adolescente, em reflexão:
"(...) Lembro-me do cheiro nauseabundo. Aquela gente não se lavava, e vejam lá a que extremos, para uma adolescente reparar nisso. Não, não estou a admitir que somos imundos. Tudo se explica através de uma complexa teia de dinâmicas. Os adolescentes são muito económicos quanto às energias que despendem. Têm um perfeito controlo sobre as glândulas sudoríparas. Os cabelos são o único “quid pro quo”. O corpo mantém-se mais ou menos higiénico, mas os cabelos enriçam com o pó dos dias. A moda, as mais das vezes, impede que nos penteemos. Não há uma solução satisfatória. Quando temos mesmo de tomar banho e lavar a cabeça, passamos vergonhas enormes. Chegamos à escola a cheirar a champô e com os cabelos murchos e despersonalizados. A vida é dura. (...)"

Proust pastilha elástica

Escreve uma adolescente rebelde:
"(...) Como não tenho dinheiro e gosto muito de ler, comprei (para promoção social e algum entretenimento) um livro interminável. Escolhi o segundo volume da “Recherche”, não só porque o título tem muito a ver com a minha idade (“À l'ombre des jeunes filles en fleurs”), mas também porque noventa por cento das pessoas que tenta ler a “Recherche” anda sempre às voltas com o primeiro volume. O mero transporte deste segundo volume de Proust tem feito sucesso entre os obtusos que sabem quem ele é, e causa aquela estranheza entre os que não sabem (estranheza que se converte em alimento da minha idiossincrasia). E depois porque é bom lê-lo. Não me dá prazer, mas dá-me rasgo. Proust é um aparelho de culturismo mental. Numa paragem de autocarro ou num assalto a um banco, em qualquer situação em que seja preciso esperar, Proust entretém. Este volume vai chegar-me para todo o período em que a afirmação pessoal não é natural a ninguém. Pelo menos até ter filhos com idade de crescer fisicamente para mim. (...)" citando-a, Pedro Guilherme-Moreira

2011-01-24

Porto - um parágrafo

Desviou o olhar e levou sobreluz para um barco rabelo que ia passando com o leme a rumorar as canções dos socalcos, a vela imponente agigantando o néctar púrpura, o cubo ao fundo deitado de gente e segredos do Porto, como a Ribeira calada com a fama de tanta sombra, mas afinal tanta luz, que a cada raio a sua cor e a cada cor o seu prédio, que se devolvia ao sol em forma de estendal com ceroulas e panos de cozinhas e camisas e calças e peúgas e calções e camisolas que eram a forma do sorriso que ele passou à mulher como se o fumassem.

Adormecer

A noite tinha caído sobre Lisboa e Margarida já estava a dormir. Adão abriu a janela para o Tejo, apagou as luzes e vestiu o pijama às escuras, sentado na beira da cama sem conseguir acreditar que lá estava. Deitou-se na posição que assumia no início do sono, voltado para o lado esquerdo, com o braço esquerdo de fora e o direito por cima da dobra do lençol, às vezes encaixado no fundo das costas.
Excepcionalmente, apagou a televisão. Normalmente punha tempo e gostava de adormecer sem som e com os relâmpagos dos programas noticiosos nocturnos. Mas hoje tinha a luz ténue da Rua das Pedreiras e os reflexos prateados do Tejo. Moveu a cara sobre a almofada para a adequar ao ângulo perfeito do sono e tentou escavar com o nariz uma cova subtil por onde respiraria a noite. Subiu as pálpebras pela metade e viu o rio. Depois fechou-as de novo e sentiu a frescura do algodão na bochecha. Subiu as pálpebras apenas um quarto e viu o rio de novo. Esfregou as pernas para se aquecer. Começou a cair no conforto absoluto do seu lugar conquistado aos lençóis. Mexeu o nariz, sentiu-se respirar profundamente, a cova a ficar morna. Já não abriu mais os olhos nessa noite. Não pusera tempo nas portadas, que ficaram abertas toda a noite a banhar as suas pálpebras da luz ténue da rua e do prateado do rio. Acordou uma ou outra vez do sono profundo e sentiu-se, apesar de tudo, feliz.

Oração final

Ligamos muito a poucas coisas e pouco a muitas coisas.

Passamos ao lado, andamos por fora, perdemos o centro.
Fingimos que nos preocupamos com o próximo. Não nos importamos, e até pensamos que sim, tal como quando passamos nos passamos a interessar por um modelo específico de carro e o vemos na rua. Comentamos que antes não havia tantos daqueles. E acreditamos nisso. Nunca admitimos que foi o nosso centro de gravidade que mudou e que só giramos em torno de nós próprios. Temos pouco tempo para tudo o que consideramos essencial mas não nos apetece fazer. E passamos aos outros a ideia de irrelevância. Temos pouco tempo para ser pessoas. Pouco tempo para ler, para fazer desporto, certamente muito tempo para marinar nas obrigações, cozer em lume brando nos princípios, deixar escalar o fungo do bolor nos fundamentos da existência, desprezar tudo e todos menos nós próprios.
Temos um discurso plano mesmo no politicamente incorrecto e tendemos a excluir-nos dos desacertos.
Não temos memória. A memória está nos telemóveis e nos cartões. Cabe debaixo de uma unha. Para quê o esforço?
Havemos de ser nós a deixar os cérebros mirrar por falta de músculo.
Um dia havemos de ser nós a engravidar.
E depois?
Sequer vai haver tempo para que demos luta a outra espécie que nos queira ultrapassar nos comandos. Provavelmente nenhuma vai querer, e para sobreviver teremos de ser primordiais. Primordiais em vez de primários.

Amém.

2011-01-23

O pescador, a diferença e a Armação

O dossiê do pescador de Armação de Pêra dizia ser um claro caso de crucificação sem contraditório.
Do sexto andar do Edifício Vista Mar Um nenhuma comunidade poderia parecer perversa. De lá se apreendia de forma encantatória a vida dos pescadores, pequenas miniaturas com pequenos gestos e pequenas coisas, de lá se trazia a vigília depois de um sono perfeito com todo o mar azul. Está-se bem no mais antigo atentado urbanístico da praia de Armação. Atravessa-se uma rua e é a areia. Se for com o olhar não é preciso, tal como dizíamos supra, o mar está ali mesmo. À noite não é mar, é marulhar, as ondas sucedendo-se na praia, algo suave entre espuma e sal, o batuque do bar lá do fundo, e são duas, três, quatro da madrugada e nós na varanda a fumar mesmo que não fumemos. Ver amanhecer o tractor rebocando os barcos do mar e entardecer rebocando-os para lá, ver os dias com os pescadores vagarosamente a entretecer redes, ver noites com as luzes da pesca como lanternas de vida, essa vida nas casotas de madeira onde os pescadores têm o seu verdadeiro porto, almoçar as tiras brancas de frescura de uma sardinha algarvia, voltar da praia virando as costas ao calor, regressar no dia seguinte pelo fresco da manhã quando a lota já está vazia, tudo lá de cima e à distância visto como se fosse de brincar, é não ter capacidade de entender as veias internas de uma comunidade. Estas, em particular, latejaram violentamente quando pressentiram que um dos seus paradigmas de masculinidade tinha sido afectado pela “epidemia” dos mutantes. Se os pescadores aguentaram a descaracterização da sua aldeia piscatória às mãos da riqueza balnear que ergueu palácios e palacetes na sua linha de mar (mas que trouxe alguma beleza e harmonia urbanística), se os pescadores consentiram a destruição viva de Armação às mãos da especulação imobiliária, que dizimou esses palácios e palacetes numa invasão descontrolada de arranha-céus insaciáveis, se apesar de tudo ainda conseguiram aguentar esta Armação com roupagem de mar e cheiro a autenticidade nos meses absurdos de Verão e a outra, a que ninguém procura ou deseja, no abandono do Inverno, quão algoz é o povo quando não só não suporta a diferença nos fundamentos de um só homem, como o quer excluir de um mundo que, sendo seu, está constantemente acossado por estranhos?

Areia Branca 1990

Deram passos pequenos e muito lentos, estava um vento norte desagradável que os fez cingir os agasalhos que velavam os pescoços, já voltamos a este vento que desafia os temores e fortalece o espírito, ainda vamos aqui, no aldeamento, chegaram agora ao portão e têm de atravessar uma rua de asfalto degradado, alguns buracos rasos cheios de pedrinhas, em frente está um cruzamento e uma rua que desce para o penhasco, é uma descida acentuada, passam pela casa pré-fabricada onde funciona o café, à esquerda, mas não precisam de comunicar um ao outro que primeiro vão ao penhasco, há um pequeno desvio à direita, uma pequena subida e a primeira coisa que se vê, sem toldar a vista que aí vem, é uma moradia térrea espraiada no promontório com muros baixos e um pequeno portão em madeira lacada verde, admiram-na como sempre se admira uma casa assim, e seguem em frente, estão no penhasco e o Atlântico agiganta-se, há nuvens cinzentas e o vento agora fortíssimo a levar os cabelos de Margarida para Sul, o Sol pode não conseguir desparecer no mar, vai ter de ser nas nuvens, o comandante da estrela do nosso sistema de oito planetas acende os máximos e ainda é dia, estão apontados para o centro do mar, o centro entre a praia e o horizonte, fachos de luz a produzir a mica que Adão gosta de apanhar na contraluz por parecer um troféu de prata polido, esquece-se sempre da máquina fotográfica, tira o telemóvel e aponta o pequeno quadrado para ver em que parte vai extirpar a realidade, Margarida está abraçada ao seu sobretudo e o cabelo mais sossegado, parte já dentro da gola alta, o penhasco é alto e abrupto mas próximo, com umas escadas de madeira cravadas na rocha para descer até à praia, há muitos assim naquela zona, é mesmo provável que em alguns locais Deus se tenha esquecido de alisar o mundo gradualmente e, chegado ao mar, se tenha confrontado com a necessidade de cortar o barro a direito, temos fotografias num assim entre o Baleal e a margem esquerda da Lagoa d'Óbidos, mas não conhecia este recanto que esmaga e deve ficar inscrito de forma impressiva num hemisfério interior de todos os que por aqui passam em qualquer altura do ano e a qualquer hora do dia, não concordo, talvez no Outono e na Primavera e em fins de Inverno como este, mas não no Verão, a pala de cobertura da nuvem negra concentra a luz esvaente em dourado nos olhos deles e é fim de tarde na Areia Branca.
Estão ali o pedaço possível até a nortada lhes começar a entrar nos ossos, agora é que o café vai saber bem mas já não podemos ficar na esplanada, talvez haja uma janela onde se possa sentir o vento e o mar cavado, e como todos os personagens de fins de tarde frios e alguns outros destes livros, vamos envolver as chávenas escaldantes com a palma das mãos e olhar nos olhos um do outro com os queixos enfiados nas respectivas golas e ainda assim partilhar um sorriso.

Azedume

"(...) O azedume não tem limites dentro de um homem, mas é invisível no cosmos, ou seja, é infinito no pequeno espaço do ego e finito na matéria interstelar, onde podia não ser. (...)"




fonte da foto

2011-01-22

A merda da filosofia

Este tem nome.
Damião Soveral, Conde de Mazouco, doutorado em Filosofia Moderna e Contemporânea, actual proprietário da Casa D'Avó em Torre de Moncorvo, onde Adão pediu para pernoitar porque parecia haver sempre uma costura de seda a unir a sua memória a todos os sítios pelos quais passava. Em Torre de Moncorvo estivera tão pequenino que eram de lá as primeiras recordações que tinha da infância, teria quatro anos, não mais. Por causa dessa idade, todas as imagens lhe surgiam num carrossel de fade ins e fade outs, o cavalinho rupestre, as escarpas de um miradouro sobre as arribas e os grifos a planar, o abandono da estação de Barca D'Alva, o divino mau vinho e a vista dos quartos da Pensão Campos Monteiro com o anoitecer e o amanhecer e o sol de Domingo sobre a imponente torre quadrangular da igreja matriz, o azeite de Felgar, a foz do Sabor e a Casa D'Avó.
Este tem nome.
Damião Soveral estava inconsolável e nem a velha tangerineira vigilante lhe animava a existência.
- A merda da filosofia deu-me compreensão em demasia. Compreender também é ficar encurralado por conceitos. Mas deixa sempre muitos de fora: o selvagem, o anarca, o apaixonado. Depois tenho esta mania de não conseguir libertar-me do meu domínio. Sou investigador do conhecimento humano, e quando toca a descontrair com a leitura de romances, reparo que, por azelhice ou falta de horizonte, todos os que comprei recentemente são meta-literatura filosófica, e mesmo que queira fugir para os clássicos fico agoniado pela contenção das emoções. - e agora berrando - Estou farto disto, caralho! Farto!
Adão passou de encantado a enterrado entre o oitocentismo do ambiente e a licenciosidade do dono. Aquela atitude era surpreendente, e não conseguiu evitar empurrar-se a si próprio para o fundo do sofá com os olhos arregalados. Quando chegara, tinha recomposto na memória o conceito com que ficara da Casa D'Avó, que era a leveza da história, o tempero dos anos, e a doçura de Maria Ofélia, digna proprietária que estava quase nos dos cem anos quando a eternidade lhe acolheu a alma (soube logo que chegou). Quase todos os elementos decorativos principais eram oitocentistas, e no entanto parecia ter ficado pelas paredes a luz, e não as sombras, de todos os anteriores moradores. No piso inferior as portas eram envidraçadas, o que permitia um misto de recato e fulgor, porque os raios solares não se detinham até ter atravessado toda a casa. Tudo tinha um charme gasoso e pensávamos ser mentira quando nos diziam que cada pormenor por lá permanecia há duzentos anos ou mais. O papel de parede distinto e no entanto revolucionário para a época, vários tons de amarelos e bejes em rectângulos, ora com figuras geométricas ora com plantas, os tapetes das Índias, os quadros malditos isolados numa parede, o magnífico Cristo sangrando rubis, a pasta de finalista de Direito com flores amarelas sobre cetim vermelho e uma cruz de madeira com quinhentos anos e Jesus gravado em prata. O jardim modesto mas pleno de contos e conversas e árvores, com a enorme tangerineira a espreitar os quartos dos hóspedes no primeiro andar, os azulejos exteriores amarelos e verdes em baixo relevo, e finalmente Damião Soveral, a sala de jantar e o pequeno almoço.
O pequeno almoço foi servido com abundância, quase destemperança, o que provocou em Margarida e Adão um agradecimento imediato a Deus ou aos Deuses, hábito que aliás não tinham, numa magnífica sala de estar com portas de vidro dos quatro lados, de onde apareciam as serviçais.
Foi aí, já servido o café, que Damião Soveral, Conde de Mazouco, chorou copiosamente sem conseguir parar, e não foi Soren Kierkegaard, nem Martin Heideger, nem Woody Allen que o confortaram, mas Margarida com o seu lenço de mão, o embaraço a desajudar e Adão apenas no apoio moral. Nessa mesma manhã obrigaram o conde a sair à rua e a misturar-se com o seu povo (o que ainda não tinha feito) sem livros debaixo do braço. Mas Damião Soveral, aceitando embora o conselho, que pretendia cumprir, telefonou ao seu irmão e pediu  que lhe fosse enviada toda a colecção de Emílio Salgari.
Sendo quase certo que a clivagem física não se consegue gerir com reflexões profundas, e isso aceite, toda a gente passou a ver Damião Soveral, Conde de Mazouco, na praça Francisco Meireles, com "A Queda de um Império" de Salgari debaixo do braço e sem necessidade de lenços para enxugar o rosto.

2011-01-21

Daquelas doces mulheres (e homens) sem filhos sobre as quais não se escreve

"(...) A minha mulher morreu-me nos braços no dia em que soube da gravidez. Estava doente há muito, é verdade, mas não consigo deixar de pensar que a emoção de o saber lhe retirou as últimas forças. Faz-me falta. Faz-me muita falta. Ninguém que tenha estado distraído de amar pode saber o que é viver uma vida para uma mulher. Em certo sentido, a ausência de filhos deu-nos essa oportunidade de não nos repartirmos entre demasiadas coisas e demasiadas pessoas. Mas eu sei que ela se sentia desagregada por não conseguir engravidar. Quando soube que tinha engravidado de forma improvável e fora de tempo, sorriu e encostou a cabeça no braço com que eu lhe formava meio regaço. Morreu. Todos me dizem que morreu feliz, que morreu aliviada por saber que me podia dar o filho que sempre desejara e sempre fingira não querer. Por poder finalmente descansar. Mas eu sinto esta culpa que me fura a alma e é difícil de suportar. O de nunca a ter conseguido convencer de que, realmente, não queria filhos. Tenho estado em miradouros e visto precipícios com a ideia de ir ao encontro dela, mas é esta ideia que me impede sempre de avançar, de que há tantas e tão doces mulheres sem filhos sobre as quais não se escreve e que realmente não querem tê-los e têm direito a ser felizes e tantos e tão doces homens sem filhos sobre os quais não se escreve e que não querem tê-los e têm direito a ser felizes. (...)"

Memórias da erva que pica

(...) Recordo a estrada em terra batida, única que ligava Armamar a Vila Seca. Recordo como era em si fonte de evasão a certeza de que nos afastávamos para lugares remotos onde ninguém conhecido nos encontraria. Parava-se para colher amoras e as crianças brincavam cantarolando sempre as mesmas rimas. Recordo o largo à chegada a Vila Seca, onde se deixava os carros e onde eu brincava e cobiçava a minha prima (mas ela morria de amores por outro mais velho que a impressionava com os cogumelos desencantados na encosta fronteira à aldeia, que tinha nome da vila que não é). Recordo a casa arrendada para a temporada, muito estreita e comprida, com um só corredor e quartos dos dois lados e um pé direito altíssimo que exigia portas e janelas descomunais, a dar para uma rua mirrada de casas de pedra em que não entravam carros nem se deitavam homens. Mas é a urtiga que crescia no largo junto ao tanque comunitário o que recordo com mais vivacidade, a que eu chamava "a erva que pica" e que experimentei pela primeira vez e nunca mais esqueci, não porque as dores fossem agradáveis, mas porque, quando me piquei, as minhas lágrimas convocaram a prima que, por causa disso, ficou pelo menos quinze minutos desses quinze dias abraçada a mim. (...)

Perspicácia

"(...) A mulher chegou e não precisou de apresentações, que nestas coisas (diz-se) as mulheres são de uma perspicácia imbatível, como se os homens andassem distraídos de todas as coisas e elas não. (...)"

fonte da foto (quadro de René Magritte, "Perspicácia")

Álacre

"(...) Sabia mesmo, mas a mulher estranhou tamanha sensibilidade e instinto num homem, que, dando provas do seu exacerbado, porém álacre, machismo, passou o tempo todo a criar e recriar piadas que ela refazia e ele exponenciava até às lágrimas. (...)"

Cerdedo

(...) A comitiva não tomou o caminho mais directo desde Montalegre, porque a Margarida fazia falta o mar que estava omisso há dias demais, pelo que nessa manhã de ante-sala primaveril, com o sol nascente mergulhado nos estofos dos carros e nas caras dos ocupantes, ninguém se opôs a uma passagem pela ilusão de mar que é a imensa albufeira do Alto Rabagão, nem pela enseada de brilho que a albufeira da Venda Nova nos oferece mais abaixo na estrada, alimentada pelos mesmo rio, que é um afluente do tal pungente Cávado que vem ao mundo no Larouco.
Virando aqui à esquerda, seguiram pela nacional trezentos e onze, que é uma estrada com vista a espraiar para a direita de quem vai, um longo e encantatório vale que nos vê na cumeada, talvez Cerdedo, não sei, sei que quem por lá passa, mesmo com céu negro, se rende, mais aos verdes do que aos amarelos ou magentas, há campos como colchas de patchwork com um quadrado de pequenos riscos verdes como chuva, outro quadrado com meninos sentados nas carteiras da escola com bonés vermelhos amarelos e azuis e bolas vermelhas amarelas e azuis, outro quadrado com urze vermelha, talvez Cerdedo, não sei, talvez uma mulher em Cerdedo coberta por uma capa barrosã, eles seguiram até ao ponto em que Boticas aparece lá em baixo e pode dizer-se
Estamos a chegar. (...)

Porque sim

(...) Mas a história teve um pormenor escabroso, porque o povo deixou de gostar de Mateus por razão nenhuma:
O Presidente da Junta de Freguesia, senhor Pôncio, convocou uma reunião geral da aldeia pedindo que lhe trouxessem Mateus à sua presença, e quando ele compareceu manietado por dois concidadãos antes seus companheiros de bisca, perguntou a todos menos ao acusado
- Que hei-de eu fazer então a Mateus?
- Rua com ele!
- Mas que mal fez ele?
E várias vozes:
- Rua com ele!
E cada vez mais forte:
- Ninguém o quer cá!
E em histeria:
- É a vergonha da aldeia!
Então o senhor Pôncio considerou-se esclarecido e declarou:
A paz social é fundamental para a freguesia, e como constato que há unanimidade na opinião do povo, vejo-me forçado a dar ao senhor Mateus ordem de expulsão dos limites da freguesia.
Uma voz trémula sobressaiu da massa informe:
- Mas eu não concordo.
Era Camila, mulher de Mateus, que teve como resposta o habitual burburinho e uma razoável quantidade de gargalhadas infantis, o que poupou ao político o trabalho de uma resposta fundamentada.
- Vai-te embora, bruxa!
- Rua com os dois!
E mais risos infantis provocados.
Mateus e Camila recolheram a casa e não mais de lá saíram, desrespeitando a decisão ilegítima do senhor Pôncio. Os primeiros vidros partidos foram substituídos, mas os segundos ficaram assim mesmo. Entaiparam janelas e portas, duplicaram ferrolhos, e embora nos primeiros dias tivessem ficado sobressaltados com tentativas de arrombamento, depressa o triste povo desistiu, mudando o discurso para não reconhecer a derrota:
- Isso, fiquem, que se um de vós sai é morto!
A vergonha de Mateus foi destilada em raiva e indignação, combustível de resiliência. (...)

A poesia do chouriço

 (...) Talvez nunca te tenha contado, mas quis começar por Montesinho porque reconheci o nome do pastor a quem, segundo relatos transmitidos ao secretariado, terá acontecido a maior das desgraças. Eu sei que a tua memória não é daquelas em que se sedimentam nomes, lugares e factos em pequenas camadas sobrepostas que se vão ligando com o tempo, mas deves lembrar-te do Senhor Mateus e da Dona Camila, ele muito calado e ausente, ela sempre perscrutante e observadora, seguindo todos os passos de cada visitante.
Margarida lembrava-se vagamente de um pastor que se mostrou no meio da neve numa reportagem de jornal e de uma mulher que se insinuava pelos espaços que as pessoas queriam ocupar, tão intrusiva quanto generosa e prestável.
Deram-nos lenha e enchidos que assamos num fogão antigo de ferro negro, comemos tanto e nada nos fez mal, e todos nos convencemos de que enchidos caseiros não só não são nocivos como se tornam terapêuticos (aquecem o estômago e a alma). (...)

Este paraíso para dentro do muro

(...) Na antiga estrada nacional cento e três sete há testemunhas de todos os tempos e de cada lugar. Corre junto ao Rio Sabor, e contra ele, se formos para Norte, em direcção à fronteira do Portelo, e o rio desenrola-se como uma lenda transparente com os mesmos seixos multicolores descritos em todos os tipos de literatura desde tempos imemoriais. Não há encostas profundas, pelo contrário, às vezes parece que o rio (que naquele seu início é pouco mais do que um delicado ribeiro) se confunde com a estrada, funcionando como rota de regresso do sentido único da nossa viagem.
Os lobos e as raposas e os javalis e os corços e as toupeiras-de-água e os gatos-bravos e os morcegos-de-ferradura-grande e as cegonhas-negras e os picanços-de-dorso-vermelho e os melros-das-rochas e as petinhas-ribeirinhas e as borboletas e os mexilhões-de-rio (até as trutas) e toda uma multidão de animais que não se deixa notar (vê-los é sempre uma bênção e uma raridade) senão pelos sons que musicam a rotina do Alto Sabor e daquela estrada enfeitiçada de paz - é mesmo possível ouvi-los de dentro de um carro se reduzirmos a velocidade e escancaramos os vidros (incluindo o óculo traseiro, que abre de forma independente) -, ora todos estes animais são as nossas testemunhas de todos os tempos e de cada lugar.
As árvores que em longas conversas se inclinam, ora pressurosas ora compassadas, sobre o rumorar das águas, também.
O rio afasta-se de nós numa curva larga por alturas do desvio para a aldeia de França, deixando a descoberto um superlativo vale com o fundo dos contrafortes da Serra de Montesinho, internando-se depois subtilmente no caminho da aldeia, ou, mais rigorosamente, vindo internado da sua nascente espanhola na Serra de Parada, tão perto da fronteira que muita gente pelos séculos fora perguntou de forma retórica se não haveria rei português dedicado a conquistar esse minúsculo talhão de serra para que o rio fosse só nosso.
Perante as tais testemunhas, prosseguimos mais um pouco pela cento e três sete até ao desvio para a aldeia de Montesinho, já muito perto da fronteira.
Agora é um instante. (...)

Os carrinhos matchbox, o dentista e o medo da mãe

Era a montra de vidro ampla, muito ampla, larga, muito larga, alta, muito alta, um pedaço de montra só com carrinhos matchbox e majorette . Nunca gostei muito dos majorette, dizia a todos que os matchbox eram melhores e isso trouxe-me alguns dissabores porque a minha mãe, sabendo disso, me negava sempre os majorette, mesmo quando não havia de outros. Eu teria sete ou oito anos nessa altura, e a montra ficava do lado esquerdo da Rua Formosa, quem vem dos Aliados, mesmo em frente ao dentista que me aterrava, um dentista muito antigo com instrumentos pesados e assustadores e uma cadeira sem suspensão hidráulica que eu sempre vi como lugar de execução. Lembro-me de que costumávamos esperar muito tempo e eu, que era um rapazito bem comportado e me entretinha facilmente, ficava maçado de folhear as revistas todas, as mesmas revistas todas as vezes anos a fio. A meio da tarde, porque eram verdadeiras tardes de espera, a pequena janela a deitar para a rua começava a mover as cortinas transparentes e a chamar-me para colar a testa aos vidros, dava-me essa confiança, e eu ia, tinha só tamanho para ver lá em baixo a camada junto ao passeio em bicos de pés, e era nessa camada que eu via ao longe, lá de cima, a montra dos carrinhos. Durante anos só podia vê-la a correr, arrastado pela mão da minha mãe quando íamos embora, e ela tinha de ir embora porque tinha medo de tudo, nunca fazíamos desvios, podíamos perder-nos no Porto, perder o autocarro de volta, perder o conforto da rotina, e era só por causa do medo que a minha mãe me arrastava e nem a montra dos carros, nem a fruta do Bolhão, nem os cadernos da Papélia, nem o café do Majestic, nem as roupas da por-fi-rios, nada, eu não via nada. Então um ano, entre os dez e os onze, já eu era mais alto do que a minha mãe, ela disse que sim ao meu centésimo quinquagésimo pedido para descer dois andares e ficar colado de joelhos ao vidro da montra dos carrinhos, e a partir daí comecei a fazer sempre assim, e como tinha tempo também me encostava de costas e via as pessoas nos passeios e tomar café na Sanzala do outro lado do largo. A minha mãe começou a ter menos medo e um dia cumpri mesmo um dos meus sonhos e fui tomar uma cevada com ela à Sanzala. Mas com esse hábito também ganhei o direito de me serem oferecido regularmente alguns carrinhos matchbox, porque o tempo e o vagar para os analisar era muito, pelo menos enquanto a minha mãe suportava ficar colada à janela lá em cima e antes de começar a bater sôfrega e repetidamente com os nós dos dedos no vidro porque a pessoa que estava antes de nós entrara. Um dia, já com mais de doze anos, deitei tudo a perder quando me atrasei a subir. Foi mais um ano maçador a folhear revistas, talvez o último ano deste dentista, que faleceria pouco depois. O que mudou aos dez anos foi essa hora em que eu ficava de joelhos a admirar todos os modelos com detalhe, só podia ter um a cada duas visitas e não me queria enganar na escolha e na defesa da minha causa, que a minha mãe ouvia sempre com muita atenção, fazendo perguntas mordazes: mas não levaste uma carrinha há dois meses? E o jipe vermelho que compraste perto do Natal? Outro Golf?. E um dia, já eu namorava, passei na montra dos carrinhos da Rua Formosa e cumpri outro sonho: entrei na loja e gastei o meu próprio dinheiro sem ter de dar satisfações (embora a namorada também as pedisse, e eu tivesse de lhe mentir piedosamente). Ainda fiquei alguns minutos suspenso entre múltiplos Se faz favor? e Posso ajudá-lo?, e lá estava a fileira de carros junto à montra, magníficos, estava a ver a montra de dentro para fora e a comprar uma dúzia de carros de uma só vez que, embrulhados num pacote, passaram por ser material eléctrico para uns arranjos em casa, eu que nunca pegava numa chave de parafusos que fosse. Carrinho após carrinho, sempre vi os puxadores, os retrovisores, as jantes, os pneus e, acima de tudo, as portas, se fechavam ou não, o capot, se fechava ou não, nesses dias esses pormenores eram decisivos, e era preciso pensar muito bem se as miniaturas eram aptas a cumprir a brincadeira como estava planeada. E foi por esse pedaço de montra que, já casado, passei e já não havia. Era uma ourivesaria. Fim de linha e tudo para o fundo da memória. Só me resta chorar. Chorar a sorrir, mas chorar. Perdi a esperança de um dia viajar no tempo e observar o pequeno eu ajoelhado no passeio com a cabeça encostada ao vidro da montra ampla, larga, alta dos carrinhos matchbox e majorette.

A parede branca

Um pedaço de parede branca que via de bicos de pés de uma pequena ponte ao fundo da Avenida da República, em Gaia, no tempo em que os comboios passavam por esse bocado antes de chegarem a General Torres ou depois de lá saírem, esse pedaço de parede branca e a entrada do túnel bordejado de paralelepípedos de granito eram o património dos meus quatro ou cinco anos. Do curto quintal da casa da avó que ficava na Rua Luís de Camões podia pressentir o fosso da linha, a casa da avó era estreita e alta, urbana e antiga, entalada entre outras casas estreitas e altas da mesma rua que hoje já não existem, a casa da avó por lá ficou durante muitos anos mas já sem a avó, a verdade é que, se me recordo bem da entrada quase apocalíptica, sombria e muito alta, a sala de jantar intocada, a cozinha com essa marquise a dar para um quintal secreto que tinha por trás o comboio e à volta outros quintais de outras casas, mas que ninguém conhecia, uma escadas muito altas que subiam sempre a direito sempre a subir, se tivesse lido o Processo de Kafka já nessa altura teria dito que as escadas do tribunal eram essas escadas da avó, embora as escadas dessa casa de Gaia fossem mais largas, muito mais largas do que as de Kafka, mas eu só tinha quatro ou cinco anos e de vez em quando, não sabia porquê, passava umas temporadas em casa da avó com os meus pais, na altura terei pensado Somos pobres e não temos dinheiro para aguentar a nossa casa, mas nunca soube se era exactamente isso. Isto para explicar que um dia fui para Lisboa de comboio com a avó e era a primeira vez que andava de comboio, e de toda a viagem só me lembro de uma coisa e tenho muitas saudades desse momento e dessa imagem e dessa coisa, quando as outras coisas apareciam e desapareciam depressa demais houve essa que nunca me esqueceu e é a mesma que dava tudo para ver hoje, a avó abanou-me pouco depois de termos saído de Campanhã e disse Olha, vamos passar agora à beira da casa da vovó, e eu procurei, sabia que a ia ver, a parede branca, a mesma parede branca que via lá de cima da ponte, a parede branca que hoje daria tudo para rever e que não era igual a mais nenhuma, aparecia distinta de todas as coisas e de todas as sombras e de todas as luzes lá em baixo no fosso da linha do comboio e perto do negrume do túnel.

2011-01-20

Wife

‎(...) E se fizesses tudo de uma vez? Grita-me, bate-me, vai para a cama todos os dias com uma diferente, fuma três maços por dia, embebeda-te, entra em casa pelas cinco, vê o canal de desporto de sol a  sol, rebenta-te a fingires que ainda és o tipo mais vigoroso do quarteirão, e daqui a um mês volta a este lugar.

O amor vai ter uma definição,
o rosa um lugar marginal,
a rua um sufoco e as paredes um reguardo.

E tu ninguém.(...)

Perdição

‎"(...) não é fumo que ela sustém nos lábios, meu caro. -

- disse Paul sobre a ruiva que na penumbra do bar parecia fumar só para mim - , são os teus tomates. 

E se não fosse eu a segurá-los, já não saías daqui vivo. Acabavas esquecido entre os despojos da noite, com a cabeça dentro da jukebox e o "Love me like a fool" em repeat. (...)"

2011-01-19

2011-01-17

A minha treta

Dizer (desassombradamente) o que se pensa sem lá deixar o "eu" que pensa -
- este "eu" é uma cortina (normalmente opaca) que se deve baixar para conseguir ouvir os outros (um fundamento da decência), estando atento também ao que não dizem;
ler os olhares, as posturas corporais;
tocar e ser tocado fisicamente;
não impor moralidades ou filosofias ou fés,mas descarnar a complexidade da vida com ética;
ser bondoso, mesmo quando se pune.
Tentar compreender sem julgar.
Tolerar (ou contar até dez).
Esta é a minha treta.

O lado assassino de cada um explicado às crianças

Quem acompanha boas séries reconhece, certamente, aqueles episódios que valem, senão toda uma temporada, pelo menos um bom filme. O episódio 7.10 de Desperate Housewives (ao fim destes anos todos, convenço-me de que é difícil haver melhor série e, havendo-a, nenhuma é melhor escrita do que esta) mostra, de forma simples mas contundente, o lado primário de todos nós, e de como o cenário mais simples se pode subitamente descontrolar, mudando-nos as vidas para sempre. Um antigo morador, traído pelos seus vizinhos quando injustamente acusado e preso, culmina neste episódio uma vingança na qual se empenhou em fazer de cada um deles um perigo para si próprio e, conseguindo-o, comprometendo toda uma comunidade e, num terceiro patamar, de novo a vida de cada um. Acontece todos os dias, assim deixemos que a lucidez e o bom-senso nos abandone por um momento que seja. Como todas as coisas sobre as quais perco tempo a escrever, e porque ninguém me paga para tal, é - sim senhor - imperdível. A temporada 7 ainda está por chegar às televisões portuguesas, e mesmo os que não são seguidores habituais conseguem apanhar o fio à meada facilmente. Para quem não faz tenções de seguir, aqui tem treze simbólicos minutos.


2011-01-15

Rainha Bonaire e como escapar à forca da vidinha

É muito provável que não a conheçam de outros filmes, e nem que vos dissessem que traz dois Césares para amostra (o que é isso de "Césares"?) a reacção inicial seria diferente. Quando começarem a ver esta sopeira desengraçada a descer de bicicleta as belíssimas encostas da Córsega vão perguntar:
- Mas esta é que é a actriz principal?
Preparem-se para, na próxima hora e meia, testemunharem o trabalho de um actriz que domina cada subtileza das suas expressões faciais, ao ponto de ir de serva a rainha em segundos, passando por mulher submissa e amante, sem que nunca a sua personagem resvale da própria moralidade dominante. Passa-lhe trangentes, sim, rompe com a vidinha, sim, mas nunca resvala. Sandrinne Bonnaire interpreta Héléne, uma mulher que se viu presa a uma ilha corsa pelo casamento, e que faz o que pode para ganhar a vida - é mulher-a-dias de um americano e camareira num pequeno hotel local. Ora, o seu marido trabalha em empreitadas e a sua filha é uma adolescente convencional com vergonha de ser pobre. Apesar de ser uma família equilibrada, desde cedo percebemos que Hélène tem horizontes: na cena simbólica em que ela arruma um quarto enquanto os seus ocupantes (uma surpreendente Jennifer Beals - lembram-se da protagonista de "Flashdance"? - que, com quase cinquenta anos, se mostra esplendorosa) jogam xadrez na varanda panorâmica. O filme chama-se "Xeque à Rainha" e acompanha a obsessão de Hélène por xadrez, obsessão que nasce  precisamente nesta cena. Claro que, quem ler o resumo do filme e não vir o trailer, vai pensar que é o filme é sobre xadrez. Não. É "só" um filme que  explica de forma simples aquilo de que nos tentamos convencer tantas vezes ao espelho: as nossas vidinhas não são assim tão más, mas devemos ousar para lá dos horizontes limitados que elas nos impõem. Cuidado, porém, e essa é a singularidade da mensagem: aspirar demasiado alto ou de forma demasiado intensa vai destruir aquilo em que nos fundamos. E não é no sonho que nos fundamos. O sonho é a meta.
Para lá chegar, temos de encher as armações de betão. Quantas vezes a nossa família, filhos, maridos, mulheres, nos parece desengraçada à vista de vidas aparentemente glamorosas ou de actividades supostamente superiores? Aliás, a própria tensão realidade/ virtualidade das tão faladas redes sociais se baseia nisso: se todos douram a pílula, quem vive dentro das redes ilude-se com o ouro, como se fosse essa gente brilhante a aturar-nos todos os dias, a limpar a porcaria que deixamos para trás, a ouvir os nosso berros, a ver as nossas carrancas, a cheirar o nosso hálito ou a ver-nos acordar de manhã. E, no entanto, em momentos limite, quando nos falta saúde ou clarividência, quando a pressão do mundo exterior é tanta que tudo parece estourar à nossa volta, é da vidinha, das pequenas banalidades, que sentimos falta, e se ela ou ele deixa de acordar ao nosso lado, também percebemos que não é a cara carregada de base e de baton da pivot das oito que importa, mas o toque de uma mão que nos ama sobre a nossa cara desgastada. Pois este filme, como poucos, descarna esta evidência. Como se fosse preciso, dizem vocês. Mas É preciso. Se não estamos atentos, os nossos miúdos, os nossos amigos, os nossos maridos, mulheres, amantes, também vão olhar de lado para nós quando nos virem a ler um livro ou a jogar xadrez, ou até censurar-nos porque é na labuta dura do dia-a-dia (ou seja, a desmiolada, limitada ao burocrático e ao que não faz pensar) que está a vida a sério, e não na merda de um livro. "Também, pai, agora estás sempre a obrigar-me a ler. Tu é que gostas! Não achas que estás a ser egoísta?". Ousar. Mas ousar à nossa medida. Ler um livro, jogar um jogo de xadrez pode ser todo o "glamour" de que precisamos na vida.
Uma chamada de atenção para a presença forte de Kevin Kline, como Dr Kröeger, num filme que, claro, não se pode perder. E dobrámos o ano com o mesmo de 2010: os melhores foram filmes não americanos.
E depois digam-me se a Rainha Bonnaire não tem o sorriso mais bonito do cinema.