2011-12-15

uma boa altura para morrer

disse-me uma amiga que o silêncio a preocupa. se está tudo bem.
venho por ela, então. umas linhas, só umas linhas.
lembrou-me uma ausência por causa de dias de trabalho sucessivos aqui há uns anos - o fórum jurídico que me competia alimentar inquietou-se. amigos, bons amigos, telefonaram para saber se respirava.
que sim, que esta virtualidade, tantas vezes grata, tinha esse prelúdio de morte: não há silêncio online.
nos shows de realidade há lutos sempre que um jogador desaparece da vista dos outros.
como se morresse.
tive sempre a ilusão de que, por pior o dia, haveria sempre renovação à alvorada.
mas o que fazer quando o corpo está caído por terra?
o sorriso não esmorece, tampouco a alegria, talvez comece a haver uma pequena irritação para aqueles que se habituaram a nós como rochedos,
vê se te deitas a horas, vê se corriges a postura, vê se não respondes a tudo e a todos
não podes abraçar o mundo inteiro

isto é coisa de romance leve: abraçar o mundo inteiro?

posso, então não posso? nem que morra no processo.

a outra amiga, que não a que me convocou, eu dizia: se não fosse por causa dos meus, se não fosse os que se alimentam de mim ao ponto de ficarem à morte na minha ausência
se não fosse isso
era uma boa altura para morrer

assim, em luta, cansado, muito cansado, esgotado, mas sempre a esgravatar, sempre a espernear, sempre a rir, não o riso parvinho de melena sem tino ou noção do abismo ou da inclinação do cabeço,
não o disparate acéfalo do tipo despojado de vida ou sentido,

não, nada disso, o riso mesmo, o sorriso mesmo,
aquela coisa límpida de quem quer levar isto ao cais, de quem tem de levar isto ao cais,

era uma boa altura para morrer porque se está completo. Só isso.

entretanto o senhor que me contou uma história e até vai entrar num livro, esse até disse um destes dias que se matava se perdesse a casa, é uma daqueles casos em que o Banco, tributário do senhor K e das suas metamorfoses, quer vender um lar em hasta pública por causa de um equívoco provocado pelo próprio Banco: o senhor estava a pagar menos trinta euros por mês na prestação da casa, e cometeu este crime durante um ano inteiro, imagine-se, num empréstimo de quarenta. Era o vigésimo ano desses quarenta, portanto, a meio do caminho o banco quer vender em hasta pública a casa, mesmo admitindo que o erro foi dos seus serviços, que não comunicaram ao tribunal esses trinta euros a mais, constantes de um contrato assinado posteriormente por causa de umas letras estranhas para acerto de prestações em atraso, e o tribunal, embora soubesse do que se passava, mandou prosseguir a execução porque afinal a suspensão da instância só vinga se querida pelas duas partes e o Banco, apesar de dizer pela voz da sua doce mandatária que concorda com a indignidade do que está a ser feito e entenda o sofrimento do senhor, não consegue agir em tempo útil e o dia da hasta pública aproxima-se e o Natal, para ele, vai saber a benzeno,

que se matava, pois, e como é um entre muitos casos parecidos, que a providência parece ter-me enviado lá de cima apenas estes dramas que até a nós, "profissionais experimentados", nos rasgam por dentro, gente a chorar todos os dias porque não consegue aguentar mais,

que se matava, dizia o homem há dias, antes disso ia para as televisões, e eu nessa altura só lhe pedia que não fizesse isso, ou pelo menos não antes do ano novo, que a venda só está marcada para dezassete de Janeiro, e ele "está bem senhor doutor, eu confio em si", pois hoje eram tantos telefonemas perdidos por eu estar encerrado numa reunião numa empresa que, ela própria, anda a respirar artificialmente para aguentar os postos de trabalho, e eu entre os postos e os despedimentos,

que se matava, dizia ele há dias, que eu, naquele túnel negro das estradas de dezembro ao fim de tarde, a sorrir da ironia das coisas, vi seis chamadas perdidas do alegado suicida (devo dizer que é o quarto que fala em morte como solução para o sofrimento num mês), liguei de volta e mandei a piada:

- então, onde está, na ponte? ainda não saltou, pois não?

ele não ouviu à primeira nem à segunda, eu já estava a pensar que tinha sido mau gosto, e ele percebe à terceira e solta uma gargalhada apaziguadora.

eu prometo-lhe que vai ter Natal porque vamos mostrar a cara dele, pessoalmente, à mandatária, para ela ver do que é feito um duriense que trabalhou e viveu honestamente toda a vida, que se separou da mulher porque ela duvidou dessa honestidade mas nunca deixou de viver com ela na mesma casa - e eu a olhá-lo, a ele que meia-dúzia de advogados abandonaram porque não suportavam a ansiedade de um homem simples metido numa camisa de forças de uma grandessíssima besta institucional, eu que cheguei a pensar que o problema era dele, a olhá-o e a pensar que história tremenda, um homem que se divorcia da mulher porque ela duvida da sua honestidade, mas que continua a viver feliz com ela porque a ama, mesmo sem nunca ter tido um problema que não a de um Banco a acusá-lo injustamente de ser relapso, e ela que pensara que ele levara parte do dinheiro para copos e putas;

e amanhã é o sucateiro, ontem foi a menina da loja de roupas que escreveu um poema mais bonito do que qualquer um a que eu me tenha atrevido, a mãe honrada - nunca devera nada a ninguém (e não, eu confirmei) que saiu de uma festa bebida e teve de ir a tribunal e agora não consegue pagar a multa e vai-se a ver ainda vai presa, o rapaz obtuso que conseguiu ir em paz com um acordo mas está obcecado por um certificado de trabalho que tem de ser corrigido, o processo disciplinar a um homem que trabalha há quarenta anos no mesmo sítio, a insolvência do que foi tramado pelo sócio,

são estes todos que a ministra diz que eu vigarizei e não me paga e o bastonário resolve erigir em ódio pessoal em vez de honrar os seus colegas com paz - saberá ele o que é paz? saberá ela? saberão eles?

grandessíssimos filhos da puta,

diz o povo de todos os que os acossam, dizem eles uns aos outros, mas não digo eu porque alguma coisa mais do que isso sei.

tenho dois livros meio escritos e tem sido difícil. que a minha condição de escrevinhador faz doer nos dedos.

É verdade, o dia tem vinte e quatro horas e eu tenho usado vinte sem ir à cama, mas de repente não basta renovar o sorriso à alvorada, é preciso que o corpo acompanhe e o corpo deixou de acompanhar.

Isso não é problema. É oportunidade.

Teria sido uma boa altura para morrer se estivesse mais dentro do meu outono. Não estou. Tenho pensado nos tetraplégicos que vivem por uma palhinha e, como eles, sorrio.

Tenho muita sorte em ter a vida que tenho e pelo menos consegui deixar umas breves linhas a uma amiga preocupada com o meu silêncio.

Ana, todos temos isto, vida, e uma terceira amiga até me disse Pedro
andamos todos assim
e eu respondi
eu não, eu nunca ando assim
até porque te queria explicar que não estou em baixo, não estou triste, não estou desmotivado, não estou nada, estou aliás o contrário disso tudo, como sempre estive, excepto há vinte anos quando me cansei parecido com isto durante o curso em Coimbra,
Ana, todos temos vidas assim, mas estas são as linhas breves - ainda que se tenham desdobrado - de problema nenhum

está tudo bem, Ana,

apenas sorrio por uma palhinha com o corpo todo dorido

PG-M 2011
fonte da foto


1 comentário:

ana b. disse...

Obrigada:)
Folgo em saber que está tudo bem. Apesar do cansaço.
Beijinho, Pedro:)