2011-12-26

Um silêncio imprudente

Um silêncio imprudente. Temerário.
Porque é que o hotel, a esta hora da madrugada, não tem as imagens do "Shining" implantadas na cabeça dos hóspedes? No terceiro andar, há um corredor com mais de cem metros. No wc do rés-do-chão um espelho infinito. Ouço música a ver se as palavras. Às vezes há sons sinistros que não consigo distinguir se de dentro da música se da noite do hotel. Tiro os auscultadores e fico debaixo do silêncio. Ponho-os de novo. Outra vez sons. Há muitos velhos cá. Teme-se sempre a morte no dia que se segue ao Natal. Quando terminei aqui "A manhã do mundo" havia em mim uma alegria alcoólica que não permitiu que ninguém percebesse a minha pequenez perante este assombroso e descomunal lugar cor-de-rosa. Ganhou agora a quarta estrela, voltou a haver garrafas de água de boas-vindas, chinelos descartáveis e frigo-bar. Mas o silêncio da madrugada. Ai o silêncio da madrugada que não sai de cima. Os corredores curtos dão para uma parede. Do outro lado fica o topo da mais bela sala de refeições portuguesa. Se o corredor tivesse portas os hóspedes estatelar-se-iam no fundo. Provavelmente o vinho da véspera, que para os de meia-pensão se guarda com número de quarto e data provável de saída e fica sobre a mesa móvel ao meio da sala, tinha caído mal. A mim não caiu. Estou sóbrio e incomodado.Vou escrever um parágrafo do livro novo. Depois desmaio sobre o belíssimo soalho de nogueira onde já adormeci sem aviso. Que me comovi. Nas noites em que me deixei escrever foi sempre assim.

PG-M

1 comentário:

Cristina disse...

Olá, chamo-me Cristina Carvalho (e sou homónina da escritora publicada, não sou a escritora).O seu blog é uma descoberta recente e gostei particularmente deste post. Além disso, a minha pergunta tem uma razão prática: procuro um sítio onde me possa enfiar durante uns tempos (se o orçamento deixar) a terminar um romance. Este pareceu-me um sítio propício à escrita...