2011-12-07

Tretas de funeral

Um bom exercício para se viver o mais perto possível da bondade e da lucidez é imaginar o que diríamos de uma pessoa no seu funeral. E como a sentiríamos.


As mais das vezes vamos ser surpreendidos pela sensação de perda irreparável. Outras sentiremos que a conversaríamos e pensaríamos melhor depois da morte. Não, não falo da vontade primária de querer ver alguém morto, aliás naturalíssima e não correspondente, em noventa por cento dos casos, à letra expressa. Nas minhas reflexões, não há uma única pessoa que eu desejasse ver morta. Mas há muitas que eu desejo que não morram antes que eu lhes diga certas coisas. Outras com as quais sei que só serei feliz depois da morte.


Isto acontece com muita gente, principalmente dentro da família, quando não há remendo para a falta de jeito de um elemento que amamos mas com o qual já não podemos viver. Aquelas com quem eu gostava de falar antes que a morte chegue são, muitas vezes, reputadas de pérfidas. A minha experiência de vida com a perfídia por reputação tem sido estranhamente agradável: como eu tenho dito, não há nenhum bebé perante o qual se possa dizer, no berço, olha-me que grande filho da puta. Portanto, se eu cedo afecto a muitos que os outro vêem como víboras, ainda que seja aconselhável ter tomado o antídoto, o resultado é sempre um adoçamento. Tenho ganho assim excelentes amigos, por vezes mais leais do que os santinhos sociais, aquela espécie de prostitutos que recebem tudo e todos a qualquer dia e hora, mas não nos dirão presente quando a vida nos doer. Em boa verdade, o pérfido puro, aquele que está determinado a viver apenas para prejudicar os outros, só existe de forma passageira. Mas mesmo que admitamos uma pessoa que leve esse modo de vida aos extremos de paciência e tempo, se não houver entre nós e ela uma relação de dependência ou poder, ela vai desinteressar-se. Em princípio, deixar-nos-ia para os necrófagos, mas o ser humano não é necrófago no imediato. Só mais tarde, quando há glória, vai debicá-la e viver à sombra dela. Mas se à pessoa perante a qual estou não faço um bom funeral, o melhor é afastá-la depressa disso e dizer-lhe o que tem de ser dito. Quando aos outros, aos que nos magoaram profundamente e cujo egoísmo os deixa no convencimento de que somos nós os portadores dos defeitos que não vêem em si próprios, esses, é deixá-los longe, ainda que com a tristeza de nenhum afecto ser passível de lhes ser comunicado (aliás, essa gente sente-se agredida por uma palavra ou por um gesto de paz ou aproximação, é demasiado vaidosa e acha-se importante e diverte-se, por exemplo, a difamar ou  a bloquear formigas em redes sociais).


Triste, triste, são os que amamos e sabemos só poder rever em paz nesse dia, entre tretas de funeral.


E a velhice. É verdade que a velhice pode adoçar, mas quase nunca o faz, principalmente porque raros são aqueles que não têm de lidar com a verdadeira e negra solidão e com a verdadeira e negra perda dos amores das suas vidas, esses sim, tantas vezes preclusivos. Desaparece do olhar a  última centelha de ânimo, tornamo-nos impossíveis e egoístas. O velho pejorativo. A avó era uma excepção. Era mesmo. Nunca precisou de imaginar alguém no seu funeral para lhe dar tudo. Nem todos são perfeitos.

PG-M 2011
fonte da foto

3 comentários:

Anónimo disse...

Simplesmente B-R-I-L-H-A-N-T-E
Simple minds
we are

Anónimo disse...

Bia e Bernardo
BB
BB KING
BB QUEEN

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Bia e Bernardo. Que pena o quase anonimato:). Beijinhos e abraços.