2011-12-16

Mena (Qui la voce)

Nesta manhã luminosa tive sorte. Tinha a câmara comigo - hoje temos sempre as câmaras connosco, mas nesta altura ainda não era bem assim. E aquela sala, por onde passo demasiadas vezes apenas em rotina, começou a balançar à minha volta. Logo na altura ouvi o "Qui la voce" e a Sumi Jo por trás, afinal era preciso contar uma história de uma artista obsessiva de peito rasgado, e era assim

Qui la voce sua soave
Mi chiamava… e poi spari.
Qui giurava esser fedele,
Poi crudele – mi fuggi!
Ah! Mai piu qui assorti insieme
Nella gioia de’sospir
Ah! Rendetemi la speme
O lasciatemi morir.



Vien, diletto, e in ciel la luna!
Tutto tace intorno, intorno;
Fin che spunti in cielo il giorno,
Vieni, ti posa sul mio cor.
Deh! T’affretta, o Arturo mio,
Riedi, o caro, alla tua Elvira
Essa piange e ti sospira,
Riedi, o caro, all’amor.

O trisavô já era artista nas oficinas do Teixeira Lopes-pai, diz-se que aí começou o escultor Alves de Sousa, que se apaixonou pela Germaine Lechartier em Paris e lhe tomou dos braços, à morte, um menino e uma menina, ele Caius ela Hidrã. O escultor deixou mais do que a estátua da Boavista, deixou até mais do que o Orpheu da Eurídice, mas pelo menos deixou o Orpheu, que ainda existe e tem três metros de altura num vão de escada de um pavilhão das Belas Artes tripeiras - aquela estátua é, toda ela, uma vida de loucura e emoção. O Caius teve a Mena e a Mena teve-me a mim. Eu sei que na ponta dos dedos tenho cinzéis e pincéis, mas sempre gostei de pintar e desbastar a pedra de forma enxuta com palavras  nas folhas brancas. Posso confessar que o tormento que vi no bisavô, vejo na Mena e na minha imagem reflectida.
Não é nada ocasional, não é um entretenimento de maturidade ou velhice. Parece que está em vez dos pulmões.

É por isso que a maior obra que fazemos todos é viver vidas normais.

PG-M 2011

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