2011-11-15

A urgência do regresso a casa perante a tempestade

Em dias de temporal, quando descemos do centro da cidade em direcção à praia, onde moramos, vemos sempre erguerem-se do mar os gigantes negros que trazem as chuvas de princípio de noite. A meio do Outono, a noite não cai, já está. De repente. Portanto, fingimos que ela cai. Se não chove, cai pelos vapores do jantar. Se os pingos grossos molham os fumos brancos, cai quando a recolha se torna urgente. Recolher a casa em dia de temporal para não mais sair tem urgências raras. Está aquele negrume, o vento começa a puxar chuva, estaciona-se, tranca-se o carro, pega-se nas malas e nas mochilas, corre-se para o pão, corre-se para o talho, corre-se para o café, e quando se fecha a porta de casa e se pousa o guarda-chuva já se pode morrer. Não, hoje não vou pôr o lixo. Não, hoje não atendo ninguém. Vou já tomar banho e vestir o pijama. Fica-se dolente a arrumar a cozinha e a saltar canais com as pequenas grandes reportagens. E quando amanhã a televisão falar outra vez dos alertas laranja, nascemos para morrer ao fim da tarde, felizes. E chega a noite e tudo é urgente e voltamos a correr para todo o lado e a trancar-nos e a dizer que ninguém nos tira de casa. Excepto à Sexta e ao Sábado, claro. À Sexta e ao Sábado, já se sabe, nunca chove.

PG-M 2011

2 comentários:

ana b. disse...

Este texto faz-nos sentir aconchegados:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

A ideia era muito essa, Ana:).