2011-11-10

Um ano depois: o anjo que nos leva sempre pela mão*

Passa hoje um ano, pouco depois das cinco da tarde. Ninguém aqui em casa precisa de ouvir que temos de fazer o luto. Aqui não se fez. Recordamos a avó como se estivesse por aí. Claro que as saudades, assim, são ainda mais dolorosas, mas nenhuma tese ou teoria nos ajudaria a suprir a ausência. Quantas vezes acordamos cheios de saudades de um amigo do passado e vamos atrás dele para descobrir que ele, ou não se lembra de nós, ou não nos quer de volta sequer para um breve café. Esse é o luto que se faz na cara das pessoas. Mas nós sabemos que a avó, quando convocada lá onde estiver, nunca nos vai enviar de volta. Entretanto, já depois de morrer, saiu para Lisboa e foi o centro do lançamento do meu livro. Lá contei como ela fazia dezoito quilómetros a pé, todos os dias, para levar um tachinho de comida a um senhor que morava na Praça Marquês de Pombal, no Porto, só para ganhar uns tostões - e nós que pensamos que estamos mal hoje. Lá - na Bulhosa de Entrecampos - contei como ela, com a terceira classe, lia tanto e me serviu como primeira editora, porque só fiquei satisfeito quando ela me pediu para ler mais dos livros que eu escrevia e lhe levava. E acho que não contei que nunca conheci ninguém cujo olhar, perante quem com ela desabafava, não mostrava nada do próprio ego e se centrava totalmente na tarefa de dar colo aos seus interlocutores. Quando queria poupar mulher e filho das dores maiores, as dores da existência, que me davam raramente, mas davam, só ela as curava. Sexta, Sábado e Domingo terei de visitar o poema que começa por "hoje almoçamos sem ti". Hoje republico o texto que escrevi em vez de gritar, horas depois da morte.:


* a expressão que titula o post saiu desta:"os anjos, com o seu sorriso, levam-nos sempre pela mão" e é a que está na sua lápide

"A minha dor é limpa, tão seca, tão funda. As dores dos que amo descomunal. Tenho muito medo. O mar hoje estava assim, alto, cinzento, como se fosse devorar a praia e depois as casas da praia e depois as ruas à volta das casas da praia. Pôs-se sol para ela. Estive todo o dia à volta de frases de morte, mas não era prenúncio nenhum. Eu gosto das frases de morte. Mas não concebo o que está ela agora a fazer ali. Morreu para o lado que gosta mais de dormir, como sonhou, mas, caramba, não se sonha com esta merda. É um mal menor, mas é um mal. E como é que eu a descrevo? Não se faz justiça a ninguém em carne viva. Trouxe-me sempre à roda dos meus escritos com a culpa de nunca lhe ter dedicado nenhum. Acabo de descobrir porquê. Quando alguém consegue ser sempre mais do que os conceitos onde cabe é a falência das palavras. Ela criou o meu filho quase por dentro, deram-se colo um ao outro e ele ainda é pequenino mas está da altura da mãe e o que é que se faz a uma ferida assim no momento de o abraçar e dar a notícia só pelo choro e dizer Vem, vem depressa, quero que a vejas como se ainda estivesse a dormir? E o tormento de ver um filho perante a morte dentro de casa pela primeira vez? E o choro infinito do menino? E a menina, que tem memórias em cima do corpo que nunca mais acabam até ao estertor? Ainda ontem nos rimos com ela. Ainda hoje ela me disse adeus como uma adolescente, com os olhitos pequeninos a assomar do lençol na dignidade das últimas horas. E eu andei pelo dia com a estética da morte e chego e a literatura não serve para nada. Careço do uivo dos lobos. Não é correcto. Não é correcto que o corpo da Vó Ju seja falível e o seu calor nos fuja e que seja preciso vesti-la e que se tenha de falar de tábuas e caixas e capelas e despedidas. As pessoas excepcionais deviam dar outras voltas depois de cruzar a linha. As pessoas excepcionais não se chamam só Avó. Eu sabia que seria incapaz de fazer a dor abrandar porque não é suposto que ela abrande. Quando eu me esquecer de ti, avó, e do que nos rimos com a ideia do dia da tua morte - raio de lucidez que faz doer ainda mais - talvez te consiga escrever uma frase que consiga encher os outros de ti. E se não conseguir chamo-te para ver a última parte do "E tudo o vento levou" em HD, que naquele Domingo ficou incompleto quando te lembraste de ir com a menina vigiar a horta antes que a luz faltasse. Hoje é apenas um grito trapalhão porque tu sabes que eu grito com a ponta dos dedos e que o peito me sufoca até os dedos se deitarem a escrever. E que agora partilho o segredo de quem tu eras com o mundo, que queres que faça? Vinha a pensar que me quero calar, agora e pelos dias vindouros, e deixar-te a canção que há algum tempo temia ser a única saída deste dia da tua morte cá em casa, pelas cinco da tarde de 10 de Novembro de 2010. O Lenon escreveu assim para a mãe como se fosse para ti


Half of what I say is meaningless
But I say it just to reach you, Julia



(...)
Julia, sleeping sand, silent cloud, touch me


So I sing a song of love for Julia, Julia, Julia

E claro que era para ti. Até um destes dias, Vó Ju."


PS: Hoje, na missa de aniversário de falecimento, eu, que como tu sabes, avó, decidi cedo que a minha relação com a religião seria sempre crítica, o que não me permitiria nunca ser de uma só, fiquei grato com o que te "calhou" nas leituras. O Livro da sabedoria, imagina. Tu, que te distinguiste precisamente por isso. E o dia 10 de Novembro é dia de um homem relevante, um papa, agora santo, o São Leão Magno, o que teologicamente advogou que Jesus tinha um lado humano e outro divino e afrontou os poderes instalados para moralizar a igreja (e moralizou o que e enquanto pôde). Pois do Livro da Sabedoria recortei estas palavras: "(...) Na sabedoria há um espírito inteligente, (...) único, múltiplo, subtil, móvel, penetrante, imaculado, lúcido, invulnerável, (...) agudo, livre, benéfico, (...) estável, seguro, sereno(...). A sabedoria é mais ágil do que qualquer movimento, atravessando e penetrando tudo por causa da sua pureza.(...)". Até um dia, avó.