2011-11-29

Semen suum


Ouviram este discurso um destes dias?
Não, não foi o Steve Jobs, foi o...

[Sobre o facebook:
Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto; porque pregam o alheio, e não o seu: semen suum. (...) Com as armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja David. As armas de Saul só servem a Saul, e as de David a David; e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. (...)

Com redes alheias ou feitas por mãos alheias, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. (...)

Sobre a delicadeza:
Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir foraz. E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma.(...)

Sobre a pulverização de pensamentos, ideias e informação, sobre a demagogia e o que isso traz à mentira, e o que isso não traz à verdade - muito menos à auntenticidade:
Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! (...) Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas. (...) Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas.

Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são subtilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes.

Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareça em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do Mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos.]

...foi proferido (vai para 357 anos - no dia de reis de 1655  e na Capela Real de Lisboa - ), pelo padre António Vieira. Poderia dizê-lo hoje com a mesma propriedade. E agora pergunto: não estarão os homens cansados de incidir nos mesmos equívocos e, pior, de vagar a memória, não estarão os homens cansados de começar sempre do princípio, a bem do sagrado direito ao erro?

PG-M 2011
fonte da foto - Narciso, de Caravaggio

Sem comentários: