2011-11-17

Problema metafísico de calçado desportivo

Este artigo contém a resposta para a pergunta metafísica composta: qual é o melhor calçado para correr e, além do mais, dar na cabeça a uma certa tribo de afectados sociais?
A resposta abrange três vertentes: a oportunidade de crónica social, a eleição do melhor por ser o melhor mesmo - livre de "lobes" -, e, last but not the least, a hipótese de dar nas vistas sem gastar muito. Agora a parte do gajo bruto e básico que parece não saber de falar de outra coisa:
Eu tive umas Adidas durante dez anos e adorava aquelas sapatilhas. Só as encostei quando a parte da frente do pé fica toda de fora. Antes nem pensar, de tal forma se adaptavam ao dono. Torna-se o perfeito companheiro do dia-a-dia, quase melhor do que um cão. As actuais Nike Air, também já devidamente rebentadas e adequadas ao dono, já passaram o dedão num dos lados - estão quase a meio do pé -. A sola já teve de ser parcialmente arrancada, porque fazia flap-flap no piso duro - a bem dizer, as Adidas nunca perderam sola, mas os tempos são outros. Quando corri a primeira vez com as Nike senti-me um príncipe - shuá, shuá, shuá - quase voava. Mas cedo me apercebi que os benefícios da corrida tinham diminuído. Só quando as Nike se transformaram numas sapatilhas de homem, e não o que eram novas, símbolo de um "coninhas" mal resolvido que alinha com a mão em prancha o cabelo que a mamã ainda penteia com cuspe, voltei realmente a correr. Entre esse Natal (foi o Pai Natal que mas deu) e a Páscoa, engordei. E depois começaram aquilo que eu pensava serem as tretas da tribo Tarahumara e do Cavallo Branco, a propósito do livro do Christopher McDougall, "Nascidos para correr", que advogavam que a única forma de obter benefícios da corrida era correr descalço ou com calçado minimal. Lá se falava de técnicas e eu, que não gosto de deitar fora só por deitar, fui experimentar. Não demorei muito a perceber que eles tinham razão. Aliás, a corrida na areia, mesmo calçado, faz com que os pés se apoiem nas pontas (não se pode correr na areia com os calcanhares apoiados), e que se consiga ir buscar coisas boas muito idênticas às dos Tarahumara. O problema que se me punha, agora, era de índole prática. Correr descalço todos os dias não podia ser opção, porque os pisos são diversos e o nosso civismo deixa nas praias e nos passeios todo o tipo de porcaria. Entretanto apareceram sapatilhas em forma de pé (na foto) - e deu-me, peço desculpa, um ataque de riso. Passar pelas prateleiras de um loja de desporto é confrangedor. Ver os clientes a comprar mais ainda - pagando por umas sapatilhas autênticos ordenados. Eu ainda admito que haja desportos onde o calçado faz toda a diferença (eu também pratico voleibol, e aí a conversa é outra), mas na corrida é, mais um vez, o KISS - Keep It Simple Stupid. O mais aproximado da corrida descalça são as sapatilhas de piso fino, tipo "All Star". A experiência com um par desses deu-me a resposta: é diferente correr com elas e com as Nike Air como do dia para a noite, para melhor. Mas como é também muito duro e exigente em termos musculares, comecei a alternar. Até ontem, e é isso que me traz aqui: ia posto em sossego correndo na areia, o dia estava bom, quando me apeteceu descalçar e correr molhando os pés e mais, manter-me descalço até casa (faltavam uns dois quilómetros, metendo praia, passadiço de madeira, passeio e dois tipos de asfalto). Aqui começou toda uma outra aventura e a primeira experiência efectiva de correr descalço: o pior estava no início, porque se correr na rebentação é muito bom com areia fina, quando ela se transformou em pedregulhos ficou doloroso. Aiiiiii! Aiiiiii! Tive de parar - rais'parta os Tarahumara. A dor era real. Subi para a parte fofinha da areia e prossegui descalço. Cheguei ao passadiço de madeira e, fora o cuidado com as lascas, tudo correu bem, com esta singularidade: o pessoal que passa por mim todos os dias e mal me liga, a mim, que sou enorme e nada elegante a correr, portanto nada aprazível para vista, olhava três vezes para os meus pés (que por acaso até são uns 45 bonitinhos:). A velha jeitosa dos prédios azuis até olhou para trás, ela que segue sempre o seu caminho com pose olímpica e aparentemente desinteressada. Ou seja: o sucesso social é garantido - nenhuma sapatilha state-of-the-art consegue tantos adeptos ou curiosos, mesmo que muitos pensem que vai ali o hippie de Gaia. O passeio suportou-se bem, o asfalto melhor ainda, mas o pior estava para vir: na curva final apareceu a Dona Emília que mora no fim da rua e gritou, como quem dizia "maluquinho", "Descaaaaaaaalço?". Já me tinha feito o mesmo aqui há uns meses, em pleno Verão, quando me viu a saltar bancos de pedra para treinar impulsão, "A saltar os baaaaaaancoooooooos, meniiino?", humilhando-me perante pessoas boas que passavam. Mulheres, isto é. Desta vez agradeci com o habitual "tem de ser" e fiz o sprint final, para descobrir a razão da falta de aderência que tinha notado no piso mais duro, coisa pouco habitual quando se corre descalço: os pedregulhos magoaram-me de tal forma que me deixaram três dedos do pé esquerdo dormentes. Só senti o formigueiro quando parei. E a estupidez, claro. Conclusão: sem dúvida que o melhor calçado para correr é o pé descalço, como aliás para viver em geral, e o que fará mais sucesso entre as tribos não-Tarahumara dominadas por marcas sem o confessar (ficam mais ou menos com uma expressão de espanto surdo): o problema é que dói. Dói de caraças. Principalmente o raio dos pedregulhos na rebentação. Portanto, senhor Cavallo Branco, corra descalço o senhor.

PG-M 2011

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