2011-11-02

Os meus mais terríveis defeitos


Foi durante um jogo de futebol que senti, pela primeira vez, o meu sentido de justiça a vir à tona respirar, ficando numa posição mais superficial do que a própria vontade. Na liga dos campeões, o meu clube de sempre, o Porto - porque nasci tripeiro, porque toda a minha família, incluindo eu, lá jogou voleibol -, beneficiou de um penalti injusto a dois minutos do jogo com o Apoel. O meu sentido de justiça, à tona, desejou que o Hulk falhasse, mas foi golo e eu fiquei satisfeito. Dois minutos depois, ao ver um jogador do Apoel isolado em frente à baliza, o mesmo sentido de justiça desejou que ele marcasse, o que fez, mas aí a desilusão não chegou a existir. Há uns anos, depois de uma derrota caseira do Porto com o Sporting, eu jurei a pés juntos a amigos benfiquistas que nem aborrecido estava, porque tinha visto o jogo e tinha considerado a derrota justa. Anos depois, quando o Benfica ganhou o campeonato no Porto (no Bessa), fiquei orgulhoso por ver alguns dos meus conterrâneos benfiquistas festejar nos Aliados, apesar de triste por ter perdido o campeonato. Depois, claro, veio a indignação pela coça que apanharam dos hooligans que lá apareceram e que acham que os Aliados são propriedade das vitórias do Porto. Senti também uma estranha e rara solidariedade dos melhores benfiquistas quando foi o Porto a ganhar o campeonato na Luz...e a apagaram. Quando sei que os chupa-dragões (ou é super?) destroem estações de serviço a caminho dos jogos da equipa nenhum sentido de apaziguamento me move. Apetece-me apertar o pescoço aos tipos. Para lá deste desporto das cavernas, e nos sectores onde actuo, considero inimigos todos os que me desejam o mal - não os que ficam felizes com o meu sucesso, porque esse sintoma de mediocridade é humano - ou me tentam prejudicar. A mim ou aos meus. No entanto, tolero-os e não lhes desejo o mesmo. Vivo mesmo momentos de solidariedade quando pressinto a solidão que os leva a tamanha malvadez. Gosto de me rir de mim próprio e com os que se riem de mim. Mas claro que há alguns que gostam de se rir nas nossas caras quando estamos de costas - o movimento físico parece difícil, mas a natureza humana alcança-o bem. Até desfruto do breve calor do abraço que me traz um punhal. Tenho esperança de que essa gente mude um bocadinho à luz da bondade, mas não lhes dou tréguas à segunda oportunidade desperdiçada. Creio que, com algum cuidado para não ser tomado por louco e isolado num hospício real ou virtual, a perfídia é para denunciar e que não deve ser permitido aos pérfidos discursar confortavalmente instalados no pedestal invertido da mentira, excepto quando isso os ridiculariza sem necessidade de intervenção humana. Quando em, Azeitão, no dia de apresentação do meu livro "A manhã do mundo", vi a cara de timidez das terceiras e quartas e quintas filas da plateia, e mal terminou a magnífica sessão naquela escola, levantei-me e levei desconforto a essas pessoas, cumprimentado-as e agradecendo-lhes uma por uma. Finalmente, creio conseguir, só a espaços e muito raramente, superar a mediocridade dos meus pares. Nessas alturas, sinto-me feliz e orgulhoso, apesar de a mediocridade permanecer maioritária, mas volto o mais depressa possível à minha insignificância. Este é o rol dos meus mais terríveis defeitos. Peço desculpa se omito algum. Sempre cri que, para alcançar a paz e a decência, devemos fazer a guerra. E ser desconfortáveis para os proprietários de coutadas. E impedir que o nosso próprio caminho seja fulgurante. E escolher o caminho mais longo, quando esse é o correcto. É essa a essência da minha estupidez. Foi-o toda a vida. E agora retiro-me. Com gratidão. Sabendo, como sei, que serão muitos a lamentar que a inveja não seja o combustível desta ou de qualquer outra sociedade, e que se arrepiarão, confortáveis nos seus banquinhos de poder, como o atrevimento dos suicidas.

PG-M 2011
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