2011-11-22

A morte de um amigo virtual

A morte de um amigo virtual não existe. As saudades dos amigos virtuais não existem. A companhia dos amigos virtuais não existe. O casamento dos amigos virtuais não existe. O funeral do amigo virtual não existe. O amigo virtual não existe. O punho existe. O amigo virtual não desaparece, muda de computador ou de sistema operativo, perde a paciência para esse lado social, vira maçã, vira Android, vira qwerty, culpa a virtualidade pelo seu carácter obsessivo, põe na moda o depressivo. Ou não. O amigo virtual despede-se em grande estilo. O amigo virtual partilha músicas que o definem. O amigo virtual diz coisas dramáticas, desapossadas. O amigo virtual não tem carências. O amigo virtual é perfeito visto do lado esquerdo. O amigo virtual não tem acidentes nem nós temos buracos nas nossas vidas. É igual ter quinhentos ou mil amigos virtuais. O amigo virtual promete que aparece. O amigo virtual não aparece. O amigo virtual não morre. A morte de um amigo virtual não existe. O reboot existe. Os dois dedos do meio existem. Os baldes de gelo existem. A pele não existe. O pénis não existe. A vagina não existe. O "vai-te foder" consome apenas dois segundos no teclado e existe. O bloqueio é um botão, consome um e existe. O amigo virtual? Puf. Criaram uma página em homenagem ao amigo virtual mais bloqueado da história social cibernética. Criaram uma página em homenagem ao amigo virtual que morreu este fim-de-semana debaixo de um camião na A25. As duas páginas são iguais. O amigo virtual não existe. A morte do amigo virtual não existe. O difícil não existe. O complexo não existe. Os amigos virtuais conhecidos praticam o desporto da limpeza pessoal. De vez em quando os amigos virtuais fazem explodir nomes que enchem a coluna da esquerda. O amigo virtual é devoto. O amigo virtual está ansioso por nos conhecer. O amigo virtual tem muito que fazer. O amigo virtual é uma lâmpada.  O amigo virtual é um ecrã led. O luto pelo amigo virtual não existe. O ecrã azul existe. Deve ter sido isso. Puf. A morte de um amigo virtual não existe.

PG-M 2011

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