2011-11-18

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Preciso de um poema para quebrar a infâmia. Toldar a vulgaridade. Pode ser este. Este não é um poema. Preciso de um livro sem advérbios para ganhar um prémio literário. Não pode ser este.
Preciso de um prémio literário para comer. Pode ser qualquer um.
Os mais puros e os mais pérfidos levar-me-ão à letra: aos primeiros dará um sobressalto bondoso, aos segundos dará jeito.
Preciso que os mais importantes saibam de que tamanho são. Que os gelados sejam menos frios. Que a própria morte não seja a única razão para estimar ou ser estimado.
Preciso de não ter a certeza de nada. De ter a certeza de que o arrebatamento não é o oitavo pecado e de que a beleza é mais do que inocência. E perda. E solidão.
Preciso de um bife com ovo a cavalo e batatas fritas. Pode trazer-me uma travessinha de arroz?
E esparregado, tem?
E ouço a Ana María Matute Ausejo dizer, cândida,
"No esta tan mal ser viejo".

PG-M 2011
fonte da foto - retirada do blogue de Christopher Fowler

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