2011-11-23

Heterógrafo


Senhor figura pública que sempre declarou o seu amor por mim ("o que me importa é o povo", barra, "é bom o contacto directo com o público"), estou  aqui há oito horas com o meu pénis entalado nestas grades que me contêm de si junto à passadeira vermelha, pode dar-me o seu heterógrafo (como poderia ser pedido ao Bernardo Soares)?
A bem dizer, não sei se sabia, eu já passei aí, nesse lugar, há vinte anos, mas quando a minha carreira bifurcou e eu tive de escolher entre a farda do artista magoado ou a do senhor coutinho da rua das pedreiras, ao restelo, escolhi a do senhor coutinho e comecei, como todos os senhores coutinhos ou, por exemplo, jogadores de futebol que estiveram nas cadernetas e agora têm o seu pequeno negócio, ao restelo, ao galvão, à ajuda, sei lá, comecei do zero a admirar os outros artistas. Percebo que queira sossego, bem vejo como está manifestamente ausente do seu facebook, e...ah, já vai? E o heterógrafo? Pronto, está bem, para o ano. Ena. Espera lá! Não é a Vanessa que vem ali atrás, a sobrinha da minha ex-mulher que eu criei? Vanessa! Vanessa! Sim, eu falo baixo, desculpa:

É só para dizer como gostei de estar contigo nos fiéis. Eu digo-te isto todos os anos? Sim, é verdade, disse-te isto no ano passado. E no anterior. E no anterior. É que tenho saudades tuas. Ah, está bem, desculpa, falamos noutro dia.


E eu volto ao teu silêncio.


PG-M 2011

Sem comentários: