2011-11-03

Do mar

Quando é do mar é perturbante. Avassalador. Perigoso.
Não sei se nestas crónicas de corridas de praia alguma vez vos tinha falado das que têm o próprio mar como protagonista. Terei referido as que se fazem dentro dele, na linha da espuma, debaixo de calor e vento leste, mas não as invernosas. O vento de sudoeste confunde a própria natureza: do sul vem a chuva, mas quando o mar empurra as tempestades para terra e se livra delas é usual que o horizonte se limpe e a chuva permaneça. O tal sol-e-chuva-casamento-da-viúva. Quando acontece chegar para correr antes de a tempestade desembarcar, paro num semáforo em que o mar se ergue até lá acima em fúria, às vezes amarelo torrado, às vezes verde escuro, quase engolindo o céu - que fica negro, anunciando a tempestade. Dá medo. Confesso que é preciso alguma coragem para enfrentar o malandro. O rugido das vagas, ouvido da minha "base", a pouco mais de cinquenta metros da praia, torna-se ensurdecedor. E a chuva começa. Nestes dias não vale a pena levar meias: escolho as sapatilhas velhas tipo "all star" de seis euros, as mais próximas da (boa) experiência de correr descalço, tshirt, impermeável e calções. A saída para a corrida tem de ser musculada, porque o que nos espera não é fácil. Correr ao longo da praia com vento sudoeste significa apanhá-lo de frente e de lado, e em força, para sul, e moderado para norte. A chuva do mar é sempre agressiva, como pequenas pedras atiradas à cara com violência, e uma ou outra rajada que exige protecção dos braços, a tal que é obrigatória quando a temperatura é baixa e a chuva vira granizo. São as tempestades empurradas do lado do mar que, por vezes, inviabilizam as espertezas saloias de correr nestas condições - mas deixem-me explicar o porquê de sair. É no regresso pela praia que o oceano nos trata como o nada que somos. As ondas montam até às dunas e nem sempre há espaço para correr em segurança. Mas há um estranho conforto na nossa insignificância. Os problemas ficam todos pequeninos como nós. Afinal, no contexto do cosmos, somos irrelevantes. O mar, se nos quer, é para alimentar os que o habitam. Santo Agostinho e o Padre António Vieira bem pregavam que o mar e os peixes exisitiam para nos servir, mas sei bem que eu é que existo  para o servir a ele. Uma vez apanhados, alimentamos quem o habita e regressamos rapidamente à formação inicial. Não dizem que o líquido amniótico tem a constituição química dos mares primordiais? Pois a nossa irrelevância perante o mar e as suas tempestades dá-nos a medida certa para adequar o comportamento ao próximo e o tamanho da felicidade. Que é o dele. O do mar.

PG-M 2011

2 comentários:

Rita Bonet disse...

Oceano de palavras...
beijos

Pedro Guilherme-Moreira disse...

:) Obrigado. Beijos, Rita.