2011-11-21

Deus, ateus e comoção - a marca física das ideias


Pie Jesu?
A fenomenologia:
o ateu torna-se frio quando explica a sua falta de fé.
Mesmo que seja uma pessoa calorosa e sensata, emerge sempre gelado. Empertiga-se. Porquê?
Será verdade que há uma marca física das ideias ou das crenças?
Que o velho homem de esquerda, o velho homem de direita, o jovem de um lado ou do outro, têm atitudes médias? Que antecipam o discurso que se propõem atacar? Que a dialéctica nunca os faz evoluir? A coerência é uma virtude ou um defeito?
Desde pequeno que questiono tudo, como se pretendesse, por exemplo, validar o meu próprio baptismo. Como se tivesse de ratificar toda a minha educação. Lembro-me da dureza que foi para mim ter de dizer ao meu pai que me parecia óbvio que a paternidade era, antes de mais, uma acto de egoísmo. Não naquele sentido parvinho - sinceramente parvinho - de não dever trazer crianças a um mundo que as acolherá mal (esse discurso, quando as pirâmides demográficas dos primeiros mundos caminham para o estrangulamento, já nem sequer faz sentido), mas no da motivação de cada um de nós. Parecia-me evidente, aos doze anos: um homem e uma mulher não têm um filho por altruísmo: têm-no para cumprir um sonho, experimentar o poder do milagre que é fazer uma pessoa do (quase) nada, perceber o que é isso que, quando somos pais, nos muda para sempre.
Para lá de toda a discussão sobre a existência ou não de Deus, há realmente uma manifestação física e outra intelectual de quem se diz ateu que me intriga:
- a física será aquela com que abri este artigo: o ateu diz que não acredita quase zangado;
- a intelectual é o primarismo de argumentos - e falamos de pessoas altamente respeitadas nos círculos intelectuais (v.g., aquele do "provem-me que existe e eu acredito").
Nunca fez para mim qualquer sentido questionar a existência ou não de Deus.
Sempre houve homens brilhantes dentro e fora da igreja. Uns maus, outros bons, não importa. Quem lê Santo Agostinho ou o Padre António Vieira sabe o quão violentos eles são para a própria religião sobre a qual reflectem. Lúcidos. Desarmantes. Como poucos ateus o foram. Este dois homens, estando dentro da igreja, criticaram-na violentamente. Eu nunca li uma reflexão crítica de uma ateu sobre o ateísmo: sei que há, mas não é vulgar nem fez escola.

Cedo também disse à minha avó que não era católico.
Não por ser do contra, mas porque precisava de reflectir no que era isso de ser católico.
Concluí que não valia a pena seccionar a necessidade de fé. Quanto mais pulverizada, mais perigosa é a religião. O contrário também é verdade: a religião de massas, o extremo oposto, não serve.
A mim serve-me ouvir, em cada dia, sem certeza nenhuma, o que as pessoas têm para dizer. Sejam elas o que forem e acreditem no que acreditarem. Em escrita, e com algum risco de ser rotulado, descobri que a fé em situações limite ajuda mais o indivíduo do que a racionalidade, embora não tenha de ser um ou outro e seja sempre melhor propor o tempero de ambos.

É precisamente por isso que - sem que isso queira significar a tentação de querer, literalmente, estar de bem com Deus e com o Diabo - o ateu que está cheio de certeza de que Deus não existe é só mais um fundamentalista

PG-M 2011

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