2011-11-22

Dança-me (to the end of love)

Quando vi as tuas malas à porta hoje de manhã, perdi a surdez. Perdi a mudez.
Perdi a frieza, a secura da córnea, a esperança. Quando nos olhámos nos olhos já não vimos a certeza do fim, mesmo que a tivéssemos. E tínhamos. Vimos apenas a certeza do nosso amor, que agora percebemos ser um animal estranho que vive pela eternidade. Mesmo que nos odiemos, mesmo que deixemos de nos suportar, se realmente se amou a marca sobre o corpo nunca desaparece. É por isso que quando tu te voltaste apenas com a candura da primeira hora os teus lábios pediram o beijo e o beijo foi o mesmo com que tudo começou. E depois chorámos, claro, pela primeira vez chorámos pelo outro e não pelo ego de cada um. Arranca com a música e depois lê. Traduzi o Cohen para ti. O título da música era flagrante para oferecer à manhã de hoje. Eu sei. Ele escreveu-a rasgado pela dor da visão dos campos de concentração. O "burning violin" é o violino dos judeus que tocavam de pé durante toda a jornada de trabalho de destruição dos seus irmãos. Mas eu traduzi-a para ti. Arranca.
Por favor arranca a música e lê.


Dança-me a tua beleza como um violino em chamas
Dança-me através do pânico até eu ficar a salvo
Levanta-me como um ramo de oliveira
Leva-me a casa
sobre o teu dorso

Dança-me até ao fim de todo

o amor

Oh, deixa-me ver a tua beleza quando já não houver ninguém
olhar-te no deserto sem testemunhas
sentir-te mover como eles se movem
na Babilónia
Mostra-me lentamente
o lado de lá do fim

Dança-me até ao fim de todo

o amor

E agora

Dança-me para o enlace
Dança-me sem parar
O amor é o corpo e nós
subcutâneos
Estamos por cima de tudo

Dança-me até ao fim de todo

o amor

Dança-me às crianças que imploram
para nascer
Dança-me de volta às cortinas
que os nosso beijos gastaram
e agora
ergue a tenda
ergue o abrigo através
das trincheiras

Dança-me até ao fim de todo

o amor

Dança-me a tua beleza como um violino em chamas
Dança-me através do pânico até eu ficar a salvo

toca-me com a mão nua
toca-me com a luva

Dança-me até ao fim

de tudo

Leonard Cohen, sob tradução desavergonhada de
Pedro Guilherme-Moreira 2011

11 comentários:

ana b. disse...

Esta musica é lindíssima!
Amo de paixão o Leonard Cohen:)

Virginia disse...


Leonard Cohen, é para mim, o melhor cantor vivo, não conheço outro igual, música, poemas, ritmos, voz mais sonora ou mais velada, intimidade, sensualidade, polémica, sentimento puro, nostalgia, urgência....

É tudo numa canção....e tem dezenas lindíssimas, pungentes...

Sou capaz de o ouvir horas a fio, sem me cansar...
Aceito a tradução, mas as palavras em inglês casam com o ritmo da música, o que em português se torna difícil de conseguir.

Obrigada!

Virginia disse...

Leonard Cohen, é para mim, o melhor cantor vivo, não conheço outro igual, música, poemas, ritmos, voz mais sonora ou mais velada, intimidade, sensualidade, polémica, sentimento puro, nostalgia, urgência....

É tudo numa canção....e tem dezenas lindíssimas, pungentes...

Sou capaz de o ouvir horas a fio, sem me cansar...
Aceito a tradução, mas as palavras em inglês casam com o ritmo da música, o que em português se torna difícil de conseguir.

Obrigada!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Virgínia, talvez eu devesse ter deixado claro que não é, nem nunca será, minha intenção traduzir um poema para a música original - considero geralmente de mau gosto versões noutras línguas, embora haja excepções. Não. Interessa-me o poema e não sou um tradutor. Sirvo-me da obra como mote de uma obra nova (minha). Dei-lhe o ritmo que senti que devia ter em português. A minha intenção era destacar o valor da poesia do Leonard, algo tão raro na música em inglês.

Virginia disse...

Pedro,

Não estava a criticar, de modo nenhum, e gostei da versão em prosa, mais subjectiva e igualmente poética.
Traduzir envolve muitos skills e as canções são ainda mais difíceis do que poemas ou prosa. Temo-las no ouvido, de modo que o som das palavras faz parte do todo.

Traduza sempre....há muitas mais canções dele que são fantásticas, aliás ofereci um livro ao meu irmão com poemas dele e tradução em português, já não sei de qual editora.

Tenho um livro que trouxe de Leeds com o Dance Me e pintura do Matisse, mandei vir pela Amazon. É lindo.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

mas pode criticar. Estamos em diálogo livre:). Eu estimo tanto este diálogo, tão raro na literatura e na arte em geral. Não será a postura da maioria dos escritores e restantes artistas, e nem sei se sou eu ou eles que está correcto, nem me interessa. Mas eu vejo em cada leitor um sábio - nem sempre são, mas é assim que o sinto numa primeira abordagem -, aprendo sempre mais do que eles, e gosto de dialogar, até porque não tenho certezas sobre nada e para avançar no conhecimento é preciso questionar. Mande sempre. Este blogue chama-se "Ignorância" e há uma (muitas) razão(ões) para tal:).

Virginia disse...

Pode explicar porque escolheu esse título?

Gostava de saber....

Sabe o que não gosto no seu ( e muitos mais ) blogues? É desta coisa de ter de provar que não sou um robot. Tirei isso do meu e não faz falta nenhuma....:)

E o meu nem sequer é moderado, nunca tive problemas em 4 anos de experiência...

Pedro Guilherme-Moreira disse...

qual título, Virgínia? Do blogue, do poema, do post? Quanto à moderação, o meu também era livre, e foi-o durante oito anos, até ao dia em que uma senhora leitora resolveu por-se a indagar sobre a minha mulher, a minha família, e a fazer avisos íntimos à navegação. Dá mais trabalho, aborrece quem quer comentar por impulso, é verdade, mas tem de ser Nem todos são boas pessoas. Aprendi isso demasiado tarde:).

Virginia disse...

O título do blogue, claro, era disso que estávamos a falar. É que ignorância é um estado mental e não tem nada a ver com a leitura de blogues, pode ser uma acusação ou uma inevitabilidade em todos nós.

Ignorãncia pressupôe tanta coisa, até política!

Daí a minha pergunta: Porquê este nome para um blogue?
Acredito na maldade das pessoas....o meu blogue foi riscado do ciberespaço pelo meu irmão, que era o administrador na altura. Este novo foi todo feito por mim from scratch e gosto bem mais dele....para já não tem moderador...:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

"Ignorância" está aqui no sentido socrático. Quando criei o blogue, tentava libertar-me das certezas absolutas, minhas e de quem eu não admirava e mesmo de muita gente que eu admirava. Obviamente ninguém acede ao conhecimento sem ter noção do que não sabe. Ao longo dos anos, e como há tantos artistas, tantos escritores, tantos músicos, e embora não as considere condição da arte ou mesmo do exercício profissional, fiz da bondade e da humildade condições de crescimento e evolução. Tento mesmo integrá-las no conhecimento, mas essa integração nunca é linear. A minha atitude, contudo, é de "guerra santa": ser conciliador não implica falta de combatividade ou consentimento da mediocridade o incompet~encia ostensivas. Uso a ironia apenas para afrontar o statu quo e considero o humor a cúpula. Ingorância, humildade, bondade, ironia e humor. A ironia e o humor granjeiam alguns inimigos que não estão para ver o seu conforto e as suas certezas questionados. Não gosto de fazer inimigos, ainda qe breves, mas já percebi que é um decorrência da linearidade da coluna vertebral. Chega? :) - sem rever, PG-M

Virginia disse...

Concordo em absoluto consigo, ainda ontem comentava sobre esse assunto no blogue O Livro na Areia, que é um manancial de boa música e de conhecimento, própria de quem tem gosto pela Arte, neste caso mais a Música Clássica, e de quem sabe e conhece todos os meandros da mesma.
Aprendo imenso naquele blogue, eu que pensava que sabia alguma coisa de música e que sempre fui a concertos, desde os 10 anos em Lisboa.
Mas Sócrates ( o verdadeiro) tinha a noção exacta de quão grande é o universo - e ele nem conhecia o ciberespaço!!

A ironia e o humor são vitais para mim, mas tb já dei com a cabeça na parede pelo facto de as pessoas não compreenderem essa ironia. Adoro o sentido de humor inglês....

Obrigada pela explicação e pelo chatlike diálogo, mas agora vou-me....must go out!

Abraço