2011-11-06

Ainda faltam muito mais do que 39 degraus (mas estes não)

Primeiro as coisas boas: o Rui Melo merecia um Tony. Caramba. Já passou um dia desde que o vi na peça "Os 39 degraus", no mesmo Rivoli do anel de rubi do Tê, e ainda trago as composições do Rui nos músculos da cara. Doridos. Não sou de riso fácil e ia muito desconfiado. Primeiro, para quem diz que o teatro está barato, convém dizer que quinze euros por cabeça não tem nada de barato. A parte boa é ter valido os euros todos. A outra parte má é querer voltar para me divertir ao lado do primogénito e não poder (eu que não gosto de repetir nada para lá do "Era uma vez na América"), a não ser que haja descontos para regressos com as gerações seguintes pela mão (estive deliciado com crianças institucionalizadas que enchiam a fila da frente: elas dão bem a medida, digamos, primordial da peça: ao  encontro da sofisticação do simples). Ao terço da peça já tinha perdido a desconfiança toda, depois de três peças  que nada acrescentaram à minha aventura neste planeta: aquela do Shakespeare em noventa minutos, que vi em Lisboa e achei boçal (peço desculpa, não costumo ser tão severo - e calo-me quando me apetece ser -, mas isto é como os nus nos filmes: neste contexto, tem de despir), uma do La Feria travestida de peça séria de que já nem me lembro o nome (eu sempre me defendi das peças La Feria, mas lá fui apanhado) e - pasme-se - uma entediante do Thomas Bernhard no Porto. Portanto, estava muito desconfiado com certo teatro (não será o caso da do Thomas) que existe para financiar projectos de maior qualidade (não tenho capacidade para financiador), tal como os maus livros existem para financiar os editores que ainda arriscam em literatura. Mas voltando atrás: depois de falar do desempenho do Rui Melo, no almoço de Domingo, a toda a família, gostava de repetir e de os ver rir ao meu lado. Há fundamentalmente uma prodigiosa imaginação na adaptação para comédia do argumento de Hitchcok feita por Patrick Barlow, que nos ensina a nós, portugueses, uma vez mais, que o que nos falta é quem saiba escrever para teatro e para cinema, porque actores temos muitos - e bons. Rui Melo tem um desempenho notável, mesmo imperdível, e importa dizê-lo claramente: a peça é brilhante e marca quem a visita. Mas a maior surpresa é mesmo Vera Kolodzig. Nem me digam que "para quem a conhece não é surpresa nenhuma". Porque já não se fala de potencial, mas de certeza: abre a matar com a melhor personagem da peça, Anabela Schmidt, e é a forma como enche o palco e ocupa o espaço cénico, melhor, é a forma como os domina, que impressiona. E tem piada, a Vera, muita piada. Mantém o nível altíssimo ao longo das quase duas horas de movimento, e tem a particularidade de estar largos minutos imóvel numa posição desconfortável, o que nos dá a medida simbólica do grande teatro: esgota fisicamente o actor maior. Ao longo da vida vi grandes peças de teatro: lembro-me da "Tempestade", de "O que diz Molero" e da melhor de todas, por ter conjugado na perfeição os principais factores de uma peça de teatro, espaço, texto, actores, que foi o "Jardim Zoológico de Cristal", do Tenesse Williams, em que a actriz Maria do Céu Ribeiro impressiona: quando está a agradecer, no final, testemunhamos a violência da personagem sobre o seu corpo, o olhar, aquele olhar. Numa comédia, temos de extrapolar, porque não é transparente nos olhos dos actores, tampouco na sua postura, mas não há dúvida de que a Vera Kolodzig, o Rui Melo, o João Didellet e o Joaquim Horta se arrasam e arrasam - há, inclusive, dias em que fazem duas representações. Pois é verdade que, se não nos pomos a escrever, ainda faltam muito mais do que 39 degraus para que caia a desconfiança de tipos como o subscritor, mas não é por causa desta peça. Parabéns aos actores, aos encenadores e aos produtores. Tony para Rui Melo. "Antónios" para Vera Kolodzig e João Dildelet. O Joaquim Horta cumpre, mas, claro, não arrebata, o que não desmerece o actor: a sua personagem é a única que se mantém do princípio ao fim e é a menos histriónica.
Quanto aos dramaturgos: que afiem os lápis.

PG-M 2011

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