2011-10-25

Vida e morte das (nossas) coisas


Hoje estava uma melancia na praia e a palmeira que me devia ter sobrevivido está morta.
A melancia parecia uma instalação artística, mas sobre a palmeira tenho de vos falar melhor.
A bem dizer, hoje a praia contava a tempestade e o poder do mar. Onde eu ontem tive de ziguezaguear entre rochas, hoje estava apenas areia molhada. As rochas tinham desaparecido, embora houvesse outras novas, a descoberto, um pouco acima do nível do mar. Eu sei que quando o mar faz isto a coisa esteve feia durante a noite. Não é quando vejo mais detritos, passando a correr, que o tempo esteve pior. É quando a praia está limpa e nem à rebentação o lixo vem. É nestas manhãs que nos visita, e muito bem, a pequenez e nos é lembrado o poder dos naturais. Nem numa semana um empreiteiro dedicado executaria a tarefa que um mar furibundo entrega numa noite assim. Não se pode correr - apenas patinar - nas estradas marginais porque a lama veio de montante e só parou na areia.
Mas a palmeira.
Ao visitar a casa que me viu crescer e ouvir queixas de uma carta do Ministério da Agricultura sobre aquela árvore que está lá fora fui espreitar.
A palmeira está cinzenta e com os braços caídos. Morta de pé. A palmeira que me devia ter sobrevivido.
Foi a marca da família durante muitos anos: viras na rua tal e é a casa verde, agora branca, com a palmeira.
Chegou a estar decorada com luzes no Natal, e a comunidade sorriu, agradecida.
Era bonita e, apesar da origem tropical, bem portuguesa.
Chegou a casa num vaso levado por mim. Tinha sido o meu pai a comprá-la no Jardim Zoológico de Lisboa, numa das viagens mais memoráveis da minha vida. Tinha dez anos e, para acompanhar o pai nessa viagem de negócios só fiz uma exigência: cinco livros dos Cinco. Li-os todos nas salas de espera das empresas que o meu pai visitou.Cheguei a ler um e meio numa tarde longa, e penso que me vem daí o vício de me munir de livros para qualquer situação de espera. Ficámos no Hotel Capitólio, que tinha três estrelas, e fomos às galerias Ritz comer a que seria a primeira pizza da vida de ambos. Nessa altura já tinha esquecido o acidente que não tivemos por muito pouco na recta da Tocha, à ida para baixo. O pai adormeceu, acordando a tempo de travar antes de nos enfaixarmos num camião TIR. A carrinha Citröen CX FN-20-71 imobilizou-se a centímetros do reboque. A vida continuou.
Na última tarde antes do regresso ao Porto fomos ao Jardim Zoológico, e dessa tarde só me lembro do sol no horto e do vaso com a pequena palmeira, que cumpriu escrupulosamente o seu destino: um anel por ano, até passar o telhado da nossa casa, e depois os telhados de todas as casas vizinhas, durante trinta anos. Viu quatro rapazes crescer, outros tantos cães que também viu morrer, assistiu aos jogos olímpicos da casa verde, aos campeonatos de caricas, às primeiras festas e a alguns primeiros beijos, deu sombra aos velhos e ao baloiço.
O Ministério da Agricultura quer que o proprietário a remova por representar um perigo.
Sei que não vou lá estar. Mas quero repetir
"a palmeira que me devia ter sobrevivido está morta"
e acrescentar "de pé" e "paz à sua alma", que foi a nossa alma.
E a melancia ainda está no centro da instalação da praia de hoje, sozinha, sem nada à volta, e foi a única a resistir à tempestade, porque a praia está lisa e molhada.
Só amanhã o resto das coisas vem à maré.

PG-M 2011

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