2011-10-08

Sleepless to remember les vieux amants et les fous

Quando disseste
- Já falhámos a Primavera.
no topo do Empire State, ainda as pedras eram a preto e branco e Nova Iorque a cinza, e eu te respondi
- É agora ou nunca.,
e tu disseste que sim, e o cenógrafo pintou a película de magenta e as paredes de azul, seríamos loucos, Terry, seríamos loucos se deixássemos isto passar por nós, e imagina que demorava seis meses, e tu
- Seis meses o quê? Sê realista.
mas estavas com o desespero nos olhos e o arrebatamento no corpo,
- Só quero ser merecedor do despojamento do teu corpo,
agora e sempre nesta varanda, enquanto não sobem os muros e a enchem de ferros e nos cercam de jaulas e turistas cegos que vêem através de máquinas, a tua voz quebrou, dizes tu, como se me fosses expulsar da tua pele, e como todos os americanos quando Nova Iorque era cinza e o Empire preto e branco, acendeste um cigarro e debruçaste-te ligeiramente na sacada, já não sei se eras Terry ou Annie, e eu Nickie ou Sam, sei que o pudor desceu com o guarda e ficou o teu sorriso e o fumo do teu cigarro, o sobretudo subiu e começou a canção dos velhos amantes em francês, vinte anos de amor, mil recusas, mil malas feitas, mil saídas e a tempestade sobre o Hudson e eu, como todos os homens, pela milésima primeira vez, a cantar-te ao ouvido
Mais mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore tu sais je t'aime

enquanto as mãos subiam pelas tuas coxas, a boca morna no teu pescoço e tu já devias ter caído, mas fumavas e sorrias, fumavas e sorrias, é isto que que elas dizem?, é isto que acontece quanto elas tomam o domínio e o pobre macho já só consegue tocar em frente, o burro, e mesmo que estas mãos pensassem que te devassavam a milésima primeira foi tua, soube eu mais tarde, quando trouxe a terceira mulher a esta mesma varanda e tu estavas à espera com o meu jogo completo de tacos de golfe e o mesmo sorriso, não sei se o mesmo cigarro, porque só mais tarde percebi que quando te penetrava era penetrado, que quando me vinha vinha sozinho, como vim, completamente sozinho, com um jogo de tacos de golfe e pelas escadas. Anos depois, contava-se no rés do chão da tricentésima quinquagésima avenida que uma mulher de classe fornicava homens no observation deck do Empire Stare building quando as noites tomavam os dias e as cores os tons de cinza com que te conheci fumando e sorrindo, Deborah, Meg?

PG-M 2011

PS: Dedicado ao Warren Beatty

fonte da foto PHOTOFEST

2 comentários:

ana b. disse...

Sem dúvida que o Empire State Building é o mais cinematográfico dos edificios nova iorquinos. Está carregado de memórias cinéfilas.
E o memorável "An affair to remenber" é o meu preferido. Adoro os filmes romanticos daquela época. Possuem uma candura que me emociona verdadeiramente. Se bem que a versão com o Warren Beatty e com a Annette Bening também é memorável. E tem a particularidade de ter sido a ultima participação da magnifica Katherine Hepburn.
A associação com a lindissima musica do Brel é perfeita.:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Ana, Gosto muito deste, também.