2011-10-26

parece que sempre veio a chuvinha é assim a vida e a mãe está melhor?

Garanto que, se atravessar a minha aldeia para executar alguma tarefa, ouvirei a frase em título, assim mesmo, sem vírgulas - a pausa pode significar interrupção, e a dor da vida pela manhã, por causa do peso das noites e do trespasse da solidão entre os vizinhos, é grande e tem de sair antes que o outro abra a boca - , umas cinco ou seis vezes. Eu próprio a direi. Mas deixo o registo dos vizinhos para me isolar na experiência não circunstancial do tempo, aquela em que ele é o centro e não a muleta:
o tempo é, há anos, o meu maior mentor. A corrida diária faz de mim uma espécie de cata-vento, com uma percepção aguda do tempo na cara e no corpo das pessoas, na forma como elas se encolhem ou se levantam, e a vinda da corrida para dentro da praia, para cima da areia, agravou esse inefável estado de pureza - correr os trezentos e sessenta e seis dias do ano sob todas as condições meteorológicas não é uma experiência que se possa desprezar.

Hoje temos um vento violento pelo lado sul. Este vento tira-me doçura à chuva, que fica aguda, colando-se ao cliché dos canivetes. Mesmo assim, quando olhei pela janela de manhã, tive a sensação de que esta primeira chuva era consistente e previsível, apesar da violência do sopro. Virá cadenciada durante todo o dia. Se as rajadas não forem excessivas, o dia passará suave. Na praia, o vento também bule no mar. É raro o mar apanhar-me os pés, e hoje fê-lo três vezes. Está brusco e imprevisível, ao contrário da chuva. Mas é bom passar junto dele e ouvi-lo rugir, é bom sentir-me pequeno, ter a certeza de que uma mera distracção me levaria para a sua garganta. Ali por altura do senhor da pedra entrar na goela do mar seria morte certa com este vento - não me esqueço de como as marés de cruzam e como ia sendo apanhado nos meus quinze anos em plena maré vaza de Verão e sem vento nenhum. Quando começo vou para sul e não há como sorrir por correr no mesmo sítio em cada rajada - às vezes até se recua. Mas com o vento pelas costas sou trazido ao colo. Com esta chuva, a areia fica perfeita para correr, não afunda como junto à rebentação nem se expande como no topo da praia em dia secos. Foi uma corrida perfeita. Chegado a casa ainda antes da ordem do dia é sempre hora de lavar a roupa cheia de chuva - e cheira tão bem a roupa cheia de chuva - e de a estender no alpendre para que sirva noutra jornada. 

parece que sempre veio a chuvinha é assim a vida e a mãe está melhor?

PG-M 2011

2 comentários:

Sílvia disse...

Olá Pedro,

Quando eu era jovem e estava na praia de Francelos com este vento que descreve, experimentava até que ponto o vento me empurrava, estou mesmo a ver a imagem de o levar ao colo".
E naquela altura, como o vento varria a areia, descobria sempre umas conchas bonitas e umas moedas.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Olá, Sílvia. Talvez se espante se eu lhe disser que foi precisamente em Francelos que este episódio ocorreu:))). Mundo tão pequenino, e nós de costas uns para os outros:). Obrigado pela atenção.