2011-10-04

Os meus

Não há aqui nenhum princípio: eu tenho uma urgência de escrever para fora, não para dentro, mesmo que busque a parte de fora na parte de dentro.
Ao ler alguns (grandes) escritores portugueses, contudo, e ao cair de arrebatamento perante os detalhes de si, saio sempre com uma fúria de fazer dos meus uns ícones, figuras indeléveis, e de lhes dar a eternidade que sempre terão no meu tempo. Hoje é um desses dias que criam uma excepção na minha regra - e por causa de uma boa fúria decomponho pedaços da intimidade.

Os meus são essencialmente dois, uma miúda e um miúdo e estão agora da mesma altura, pouco menos de um metro e setenta. Ele saiu de dentro dela e foi feito por mim e por ela. Ela foi feita para mim - reza a lenda que terá sido concebida no dia em que nasci. Todos dizem que ele já está maior do que a mãe, mas, quando a noite lhe derrota a vontade de nunca dormir e lhe vem buscar os sonhos que tanto o inquietam como o aquietam, fica outra vez pequenino. Quando a noite lhe baixa as pálpebras e o cansaço o apanha fora da cama, tomo-lhe o corpo no colo sem o acordar,  deito os braços dele para cima dos meus ombros e, dos meus, o esquerdo serve-lhe de assento e o direito de encosto, e sobe-lhe pelas costas, e a mão direita ampara-lhe a cabeça e afaga-lhe os cabelos, encosto-o mim, cheiro-lhe o pescoço, como que em busca do lugar onde o comecei a construir, algures por ali, entre a fonte e a linha do pescoço, emociono-me sempre e situo-me a um momento da lágrimas. Nunca choro, mas se chorasse era por causa do amor que nos filhos nunca cabe dentro do corpo e nos alaga por fora e se funde com o nosso que é infinito e nós não somos. Ele está grande, qualquer dia maior do que eu, mas eu sei que a força de um pai é como a de uma formiga: ele pode ter mais de dois metros e o dobro do meu peso e eu vou ter sempre vontade de lhe pegar ao colo, de o cheirar, de lhe sentir as bochechas com as costas das mãos, de lhe tomar a febre com os lábios, de o abraçar e deixar que ele me abrace à procura do primordial, ser filho e ser pai é normal mas uma pessoa feita de outra não é. Que não se censure um filho e um pai que se olham nos olhos com a consciência de que um é o milagre do outro.

Com ela tenho problemas idênticos. Não sei o que fazer. Está cada vez mais bonita. Mesmo no ano em que perdemos a avó e ficámos todos pela metade, ela assomou com o dobro da força. Foi pelos cabelos dela que me apaixonei, antes de me apaixonar por ela, e quando os afago e cheiro (outra vez o cheiro, eu sei, mas é novidade que o lado maior do amor se expressa pelo cheiro?) à noite, já ela dorme profundamente, fico aflito e não sei onde pôr o que sinto. Então levanto-me, levanto-me sempre, e vou ver se o frigorífico ajuda. Bebo um copo de água, mas o amor é tramado, toma-nos os órgãos todos. Se eu quiser estar mesmo sossegado noite dentro não posso olhar para ela ou no escuro ouvir-lhe a respiração ou senti-la frágil seja em que momento for. Um destes dias, quando eu estava a exercer sobre mim próprio uma grande violência e a esvaziar mais um lugar onde passei anos da minha vida, o escritório, ela foi ao melhor médico do mundo, um daqueles de aldeia que está sempre pronto e sabe tanto que já não se usa. Demorou mais do que o previsto e o dia virou costas mais cedo do que se esperava, como acontece sempre no princípio do Outono, as sombras avançaram pelo escritório dentro e os olhos, mesmo abertos, começaram a cegar - era a hora em que, sem excepção, preciso de a ver para continuar. Fechei tudo, meti-me no carro e fui ao consultório, atento às ruas para o caso de um dos vultos do regresso ser dela. A luz branca estava acesa no primeiro andar e os fumos dos jantares já entravam em nós como um barulho de felicidade que convoca para casa. Ela não estava na sala de espera e uma senhora perguntou se eu procurava uma menina com metade da idade que ela realmente tem. Hesitei e sorri, disse que sim, que devia ser ela, e bati à porta. O doutor acolheu-me entusiasticamente, ele que nunca lê está a ler o meu livro e a gostar tanto que nem ele próprio acredita e eu não me lembrava se lhe tinha escrito no exemplar a dedicatória que já escrevera com o coração, "provavelmente o melhor médico do mundo", só sei que mal a vi descobri que estava apaixonado, o que não deixa de ser desconcertante, mesmo que aconteça, não todos os dias, mas seguramente todas as semanas, e mais do que uma vez por semana, destas duas décadas e meia que levamos em fusão. Ou é todos os dias? Deve ser todos os dias. Isso não importa. Sempre que me apaixono por ela é por uma mulher diferente. Esta, afinal, tinha mesmo metade da idade, uma roupa especialmente escolhida para ir ao médico (a ternura) e a mão dentro de uma saca com exames e análises (a fragilidade), e estava tão bonita que é difícil explicar-vos, o cabelo, agora grisalho e que um dia hei-de amar branco, o cabelo e toda a figura, sabem quando têm uma fixação instantânea por uma mulher deslumbrante a entrar na passadeira vermelha dos óscares ou na mercearia da dona Aninhas ou no átrio do prédio mais degradado do bairro, não importa, sabem quando sentem isso? Era isso. Depois sentei-me e vi-a tão frágil ali, no médico, num momento em que não era suposto eu lá estar e pensei que não consigo vê-la assim todos os dias, de fora, e isso é injusto, porque ela é deslumbrante e, se é certo que a posso sufocar com abraços porque este amor, tal como o amor pelos filhos, este amor que já se mede por décadas não tem espaço que chegue dentro do corpo e um homem grande como eu não pode fechar o abraço sobre a sua mulher, que a vontade era mesmo fechá-lo todo, como se a espremêssemos para dentro de nós e nunca mais a tívéssemos longe, então sentei-me e vi-a tão frágil que, como sinto à noite sempre que deito o menino, soube que o amor tinha crescido ali mesmo, à hora do jantar.
Então é por isso. Então é por isso que dizemos
- Cada vez te amo mais.

Nunca pensei falar deles de forma épica ou arrebatada. Aliás, o que qualquer pessoa faz é juntar uma fotografia e dizer
- Os meus são estes.
Eu não. Eu prefiro explicar como o amor cresce e a que horas - ainda acho que, no fundo no fundo, foram os vapores dos jantares dos outros e que a verdadeira felicidade está entre isso e - sempre - o cheiro de qualquer um deles.
Os meus são estes e este sou eu.

PG-M 2011

2 comentários:

Pipa disse...

Perante isto, é dificíl escrever o que quer que seja... Parabéns pelo texto e por teres dois amores assim, daqueles que doem, mas em bom. :)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Pipa lightyear:)