2011-10-18

O arrebatamento morreu

Tenho de ouvir isto, tenho de ouvir isto, vai falar o ministro, o presidente, o gestor e talvez algum filho da puta, as televisões não podem estar todas enganadas, quando foi em oitenta e tal só havia dois canais e vacas a visitar concursos, não tempo, o país era pobre e analfabeto, estava desligado,  as estações do ano regulares, não havia alertas amarelos para o calor nem vermelhos para a chuva, ainda Reguengo do Alviela submergia, não se sofria por antecipação, nos setenta andava tudo drogado, crescer ou recuar era indiferente, nos sessenta as miúdas quase se masturbavam com o sorriso na cara do Paul McCartney, nos cinquenta era o Elvis, elas gritavam, eles gritavam, havia bailes e nos bailes salões e nos salões danças, havia charme e cigarros, cabelos armados e mini-saias, havia campo e saloios, havia paz no olhar, espaço de brilho, brilhantina, agora eu abro a boca e fala o ministro, é fatal, tem consciência, tu tem consciência, ajuda o teu país, caralho, espera lá, achas-me muito comuna se eu disser que tu ainda gastas trinta litros aos cem no teu audi á oito, coitdadito, com três anos, velho, e que há políticos suecos, os malucos, que andam de autocarro, queres mesmo que eu mirre ou é hora de abrir as goelas e de me masturbar com o teu sorriso? Há um milhão de reis e rainhas no facebook, donos da estética, dos tops musicais, os famosos metem-se pelos olhos dentro e depois chamam-nos stalkers, ninguém se cala a não ser quando tem de falar, ninguém se espanta, ninguém te diz estás bonita ou sempre te achei bonita a não ser no bar de engate das onze da noite, os cafés cheios de desempregados e rendimentos mínimos que continuam a comprar dois maços de tabaco por dia, estão a pensar a reduzir para um, a bola, o jogo e o record, estão a pensar reduzir para dois, e a pagar a sport tv no payshop, não estão a pensar a reduzir que um gajo tem de se alienar. O que é que vais fazer, maluco? Pintar, escrever, compor, na cara do downsizing e do despedimento colectivo? Queres que te compre um livro, um quadro, um mp3? Grande besta! Ai, coitados de nós. O arrebatamento morreu. Mas não eu. E vou foder pelos cantos e fazer filhos arrebatados e antes de me curvar netos arrebatados e antes de cegar bisnetos arrebatados. E depois morro, e o arrebatamento, apesar, ainda me vai ao funeral dançar. O arrebatamento morreu. Mas não eu. Agora tenho um sumário no primeiro criminal. Não mo vão pagar. Vou a sorrir e a ouvir a Lucille. Sabes que quando a Lucille fala o BB King cala? Tenho de ouvir isto, tenho de ouvir isto. E morre tudo menos eu.

PG-M 2011

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