2011-10-23

Lenda das Rosas II

Esta é daquelas histórias que sempre pedi para me contarem. Outra vez. E outra vez. E outra vez. Ouço-a na voz do meu pai desde que me lembro. Era pequenino e vivia no mundo do voleibol dos anos setenta, grandes jantaradas e guitarradas depois dos jogos. Habituei-me a ver o meu pai, com uma carreira por cumprir, a agarrar na guitarra e a dar concertos. Os amigos reclamavam sempre o "Cucurrucucu, Paloma", mas nem sempre a voz não queria lá ir.
Esta "Lenda das Rosas" raramente falhava. Sempre foi a minha preferida.
O drama daquele casal que morre sobre a campa e se eterniza em duas roseiras que se beijam toca o mais empedernido. O sublime poema do Linhares Barbosa (Lisboa, 1893 - 1965), que abaixo transcrevo, é dos mais bonitos pedaços de texto que alguma vez li ou ouvi, dito ou cantado. Tem uma simplicidade intocável.
Foi finalmente possível "aprisionar" o bocadinho que eu pensava  perdido para sempre no tempo: a voz do meu pai a dar-nos a sua versão da lenda. Esta sempre foi a minha versão - ele partira da versão do José Pracana -, a única que ouvi até ser crescido, a que me emocionava no meio das pequenas multidões que se reuniam à volta da guitarra. Aqui fica:


"A LENDA DAS ROSAS

Na mesma campa nasceram

Duas roseiras a par,

Conforme o vento as movia

Iam-se as rosas beijar



Deu uma rosas vermelhas,

Desse vermelho que os sábios

Dizem ser da cor dos lábios,

Onde o amor põe cem ideias



Da outra, gentis parelhas

De rosas brancas vieram,

Só nisso diferentes eram,

Nada mais as diferençou



A mesma seiva as criou

Na mesma campa nasceram



Dizem contos magoados

Que aquele triste coval

Fora leito nupcial

De dois jovens namorados,



Que, no amor contrariados,

Ali se foram finar,

E continuaram a amar

Lá no além, todavia



E por isso ali havia

Duas roseiras a par



A lenda, simples, singela,

Conta mais, que as rosas brancas

Eram as mãos puras, francas,

Da desditosa donzela



E ao querer beijar as mãos dela,

Como na vida fazia,

A boca dele se abria

Em rosas de rubra cor



E celebravam o amor

Conforme o vento as movia





Quando as crianças passavam

Junto à linda sepultura



Toda a gente afirma e jura

Que as rosas brancas coravam

E as vermelhas se fechavam

Para ninguém lhes tocar



Mas que alta noite, ao luar

Entre um séquito de goivos,

Tal qual os lábios dos noivos

Iam-se as rosas beijar. "



 PG-M 2011

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