2011-10-23

KISS na espécie do homem de letras

"A espécie do homem de letras não é uma das maiores entre as espécies humanas" Jean Guéhenno (1890 - 1978), escritor e crítico literário francês

A citação, que colhi num dos brilhantíssimos artigos de António Muñoz Molina, "La fiesta interrumpida", no Babelia, excepcional (mesmo excepcional - e isto não é coqueteria:) suplemento literário do El País de Sábado, serve de mote a uma curtíssima reflexão.

Na arte, em qualquer arte, ser absolutamente elitista e ter um discurso em tom visionário conduz sempre ao mesmo resultado: o equívoco. Foram mais os escritores desprezados e ignorados ao longo da sua vida do que aqueles que foram amados e tiveram sucesso. Avassaladores os exemplos dos que, não há muito tempo, passaram fome e morreram na miséria, abandonados pelos seus pares - é, aliás, próprio da natureza humana abandonar o que não tem uso imediato (mesmo Rosseau relefctiu sobre isto) ou nos parece ameaçar o posto que pensamos deter. Isso ainda hoje acontece: a singularidade garante quase sempre o desprezo imediato.

Daí a atitude sanitária de negar o génio na literatura, pelo menos o de hoje: mesmo que ele exista, não pode ser avaliado pelos contemporâneos. Devemos reduzir-nos à nossa opinião, e fazê-lo, sim, com coragem, mas acima de tudo com humildade. Mas a opinião não é o mais importante. O mais importante é a consideração e esse conceito em desuso - essa palavra que enjoa os "grandes" entre nós - : a bondade.

No presente, o meio defende-se elegendo um ou dois génios, cada um representante de uma geração, por trincheira. Há sempre duas trincheiras, no mínimo. E o meio abusa tanto que na geração seguinte são os mais ignorantes a exaltar primeiro esses eleitos: não que os eleitos sejam maus, mas são uma simplificação e quase sempre sintoma de que o que os destaca não sabe mais nada - e mesmo deles sabe pouco.

O que não se faz nesta espécie menor entre as espécies humanas é olhar o outro com benevolência, desejando-lhe o bem e celebrando o seu sucesso. Mesmo os tais eleitos são denunciados como não sendo caso para tanto. Os que lideram "politicamente" a pérfida "cochicice", como em todos os sectores da sociedade, são normalmente os medíocres, os que efectivamente perdem tempo com o pormenor mais irrelevante, os que fazem do centro do seu dia o tique do seu amigo, que é sempre anunciado como "boa pessoa, mas". Os melhores ficam reduzidos ao seu sossego, à sua paz, mas, precisamente por causa daqueles, não se chegam para os conhecermos. Às vezes só vimos a saber deles quando é tarde demais, pelos obituários. Mas mesmo os maus entre nós têm sentimentos: de facto, não são tão maus assim, só se distraem com a sua lupa zarolha e trocam as prioridades a um ponto em que pensam que o seu caminho é, inequivocamente, o correcto. Há um sintoma para saber que não é: quando não parece simples, está mal. Já lá dizia o outro: keep it simple stupid. Kiss*. Beijo. Não é irónico?

PG-M

* acrónimo atribuído a Clarence ("Kelly") Johnson (1910 - 1990)

2 comentários:

ana b. disse...

Por acaso também acho que não é das melhores espécies...Demasiados egos insuflados:)
Mas como todas as generalizações, também essa é injusta. Conheço algumas pessoas das letras que são integras, bem formadas e de uma imensa cordialidade e generosidade para com o outro. Incluindo os seus pares. Por isso, é com enorme mágua, que leio alguns artigos publicados nos nossos jornais, verdadeiramente demolidores, pretendendo atingir autores que, para além do seu enorme e reconhecido talento, são sempre de uma extrema lealdade e finura com os demais. Parte-se-me o coração. Acredite.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Entendo-a. Mas este Jean era uma velha raposa e sabia bem do que estava a falar. Não se trata de genralização. Apenas de oportunidade de reflexão. Sem qualquer mágoa:).