2011-10-31

Herman, the mockingbird

To kill a mockingbird. Não haveria melhor conceito para escrever pouco sobre o senhor Hermano, conhecido pelo nome artístico de Herman José, ou é ao contrário? Não se pode. Matar o "mockingbird", isto é. A tradução do pássaro que dá título ao célebre (embora academicamente desprezado) romance de Harper Lee, vencedor do Pultizer de ficção em 1961, pode ser "mimo" ou "pássaro-das-cem-línguas", pela sua capacidade de imitar o canto de outros pássaros. O Herman comove-se com o tempo, e com as pessoas no tempo, mais do que com as pessoas das cem vozes que lhes inventa ou reproduz. Inventa ou reproduz porque ficciona e, se ficciona, diz a verdade - e di-la crua - e a clareza do seu olhar não está alinhada para buscas desesperadas da verdade, essas que geram sempre a mentira. É alemão e nunca o foi. Não é português e sempre o foi. Esteve por baixo das escadas do meu colégio, onde os adolescentes iam fumar, em frente aos lavabos das meninas, anos a fio - às vezes era a única condição do amparo, o funil do desespero de uma geração que ele engoliu em silêncio - dando-lhe o riso. Não o sorriso - o riso. Compulsivo. Esse que os nossos pais não têm, a não ser quando brincam com as tais verdades que os obrigaram a calar durante meio século: coisas banais, estúpidas, um imposto sobre isqueiros. E esse animal, Herman, the mockingbird, nunca foi oficialmente protegido ou enviado para parques nacionais. Ainda anda sob mira, provavelmente sobre andas, coroado pela rua apesar da comenda. E são tantos os que dizem que vai nu, sem perceber que, mesmo que isso importasse, essa geração que o coroou na década de oitenta se está cagando para qualquer senão que um faquir oficial queira fazer reluzir junto aos lavabos, pronto para o descarregar como merda. You can't kill a mockingbird. Por isso, e antes que seja tarde, tire-se o tempo a este. I bow before the king of my laugh.

PG-M 2011

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